Agora que eu estou morando bem longe do eixo São Paulo-Campinas, acho que posso ficar mais à vontade para ser um pouco mais incisivo nos meus comentários. Mesmo que as besteiras que eu fale aqui acabem sendo muito in your face e irritem demais algum dos meus 4 leitores a ponto de deixá-los com vontade de partir pra porrada, me sinto mais seguro.
Por quê? Primeiro, as 9 horas de vôo vão fazer com que o sujeito esfrie um pouco a cabeça. Segundo, ao chegar aqui o sujeito provavelmente vai querer aproveitar pra passar numa loja de eletrônicos e comprar um iPhone 3G baratinho, baratinho. Terceiro e mais importante: nerd bravinho e partindo pra briga é a coisa mais ridícula do mundo, and I can take you all.
Mas vamos deixar de papo-furado e partir pra primeira de uma série de agressões verbais não-solicitadas: a culpa é sua se o Brasil é um lugar tão difícil para fazer novos negócios, imbecil.
É isso que eu estava pensando quando eu vi o post no Pythonologia, sobre a falta de inovação na web do Brasil. Não, a culpa não é do Osvaldo, longe disso. É sua mesmo, leitor, que está sentado no seu cubículo, reclamando da falta de oportunidades e do tanto que a empresa faz você trabalhar para garantir o seu salário “suado” do mês.
Armchair entrepreneur, é isso que você é. Bundão.
Sim, o governo é irresponsável e gasta erradamente as toneladas de recursos que arrecada através dos impostos. Sim, há muita burocracia. Sim, há pouco incentivo para querer trabalhar duro em um negócio próprio num país em que impera a Lei de Gérson. Sim, os custos de infra-estrutura no Brasil são absurdos. Sim, o ensino (básico e superior) no Brasil é uma lástima.
Mas vou te contar uma coisinha: nada disso importa mais, para quem não tem medo de arregaçar as mangas e mostrar sua capacidade para trabalhar e produzir riquezas. Pior de tudo; não é a primeira vez que eu digo isso.
Todas os problemas citados pelo Osvaldo existem realmente, mas podem muito bem ser evitados ou postergados. Na “web 2.0″, podemos deixar a papelada de abertura da empresa pra depois que você tiver um fluxo de caixa significativo. Podemos contratar um datacenter no exterior (é o que nós fizemos) e fugir dos planos ridículos aqui oferecidos.
Dependendo da idade e da situação da pessoa que quer trabalhar em um projeto novo, podemos até reduzir nosso custo de vida para não precisar tirar dinheiro do próprio bolso durante a fase embrionária do projeto. Bastaria chegar para seus pais e falar: “Pai, Mãe, posso pegar o meu quarto de volta e morar com vocês enquanto o projeto que estou desenvolvendo não gera renda?”. Na verdade, já que fazemos parte da geração-canguru, há uma boa chance que você já esteja morando com os velhos mesmo, não é?
Sabe qual é a única coisa que não podemos contornar, o único recurso que nos falta? Pessoas dispostas a correr riscos. Pessoas que entendem que perder algumas batalhas é do jogo. Pessoas que fazem os sacrifícios necessários para alcançar um objetivo maior.
E como você não é esse tipo de pessoa que faz tanta falta no Brasil, podemos concluir que você é parte do problema e não da solução, malandro.
Ah, nem pense em dar a desculpa do “eu tenho família e filhos para sustentar, não posso correr riscos”. Toda pessoa que trabalha com investimento sabe que a exposição ao risco é algo calculado. Nem pense em dar essa desculpa patética, enquanto você fica medindo com seus amigos o quanto de retorno você está tendo na sua carteira de ações.
Mesmo quem não pode largar o seu emprego e montar a sua própria empresa pode assumir uma postura que promova o empreendedorismo e a inovação. Você não precisa largar o seu emprego para financiar um projeto Open Source, ou para se tornar um Angel Investor. Ou para juntar-se com um grupo de outros colegas da sua empresa e investir dinheiro em pessoas mais novas que tenham projetos ousados. Risco e recompensa são sempre proporcionais; você pode pensar em diminuir um pouco a sua quantidade de papéis da Petrobrás (que não precisa do seu dinheiro, anyway) e passe a investir em algo muito mais arriscado: startups. Quem sabe você não está diante do próximo Google?
Não quer colocar dinheiro? Torne-se mentor de um garoto na faculdade onde você estudou. Compartilhe com ele a sua experiência, a sua visão do mercado, a sua opinião a respeito das mudanças na sociedade que a tecnologia traz, etc. Em um mundo onde o custo operacional é nulo, essa ação pode ser ainda mais valiosa do que hard cash.
Pra encerrar, deixo as palavras do grande filósofo Ben Parker: “com grande poder, vem grande responsabilidade”. Qualquer pessoa que tenha conhecimento e técnica em mãos tem grande poder. Esse é o nosso caso. Cabe a nós, agora, saber usar esse poder de forma correta e responsável.