O Que As Empresas Podem Aprender Com o Open Source
(Tradução do artigo disponível no site do autor )
Ultimamente as empresas têm prestado mais atenção ao open source. Há dez anos atrás parecia existir o perigo real que a Microsoft extendesse seu monopólio ao mercado de servidores. É seguro dizer hoje que o open source impediu isso. Uma pesquisa recente descobriu que 52% das empresas estão substituindo servidores Windows por servidores Linux. [1]
Mais significativo, eu acho, é saber quais 52% são estes. A essa altura, qualquer um que proponha usar servidores Windows deve estar preparado pra explicar o que eles sabem a respeito de servidores e que Google, Yahoo! e Amazon, não. Mas a coisa mais importante que o mundo dos negócios tem a aprender com o open source não é sobre Linux ou Firefox, mas sobre as forças que os produziram. No final, essas vão ter mais impacto do que simplesmente determinar qual software você vai usar.
Nós podemos ter uma idéia dessas forças ao relacioná-las com blogging e com o open source. Como você já deve ter percebido, elas têm muita coisa em comum.
Assim como o open source, blogging é uma coisa que as próprias pessoas fazem por prazer, e de graça. Assim como hackers de projetos open source, os bloggers competem com pessoas que estão trabalhando por dinheiro, e frequentemente ganham. O método de garantir qualidade também é o mesmo: Darwiniano. As empresas garantem a qualidade através de regras que previnem que os empregados façam bobagens. Mas você não precisa disso quando o público pode se comunicar diretamente. As pessoas simplesmente produzem o que bem quiserem; o que é bom se espalha, e o que é ruim é ignorado. E em ambos os casos, o feedback do público aprimora o melhor trabalho.
Outra coisa que blogging e open source têm em comum é a Web. As pessoas sempre estiveram dispostas a trabalhar de graça em algo grandioso, mas antes do surgimento da Web era mais difícil alcançar o público ou colaborar em algum projeto.
Amadores
Acho que a que o mais importante dos novos princípios que o mundo de negócios tem que aprender é que as pessoas trabalham muito mais seriamente nas coisas que elas gostam. Bem, isso não é novidade pra ninguém. Então, como posso dizer que os executivos têm que aprender? Quando eu digo que os executivos não entendem isso, eu quero dizer que a estrutura do mundo dos negócios não reflete isso.
Os negócios ainda refletem um modelo antigo, exemplificado por uma palavra francesa para trabalho: traveiller. Ela possui um parente inglês, travail, que significa torturar. [2]
Mas essa não é a última palavra sobre o trabalho, contudo. A medida que as sociedades vão ficando mais ricas, elas aprendem algo sobre o trabalho que é muito parecido com aquilo que elas aprendem sobre dietas. Nós sabemos que a dieta mais saudável é aquela que nossos ancestrais camponeses eram obrigados a comer, por serem pobres. Assim como “comida de rico”, o ócio é algo que parece desejável apenas quando não se tem o suficiente. Acho que nós fomos projetados para trabalhar, assim como fomos projetados pra comer um pouco de fibras, e nos sentimos mal se não o fazemos.
Há um nome para as pessoas que fazem o trabalho pelo amor que têm por ele: amadoras. A palavra agora tem conotações tão ruins que esquecemos
sua etimologia, emora esteja bem na nossa cara. “Amador” era originalmente uma palavra de elogio. Mas no século XX, todos deveriam ser profissionais, coisa que os amadores, por definição, não são.
É por isso que o mundo empresarial foi pego de surpresa por um lição do open source: pessoas que trabalham por amor frequentemente superam
aquelas que estão trabalhando por dinheiro. Os usuários não mudam do Explorer para o Firefox por quererem mexer no código. Elas mudam de
browser por que querem um browser melhor.
Não é que a Microsoft não esteja tentando. Eles sabem que controlar o browser é uma maneira de manter o seu monopólio. O problema é o mesmo que eles encontram em relação a Sistemas Operacionais: eles não conseguem contratar uma quantidade suficiente de pessoas que consiga construir
algo melhor que um grupo de hackers inspirados constrói de graça.
Eu suspeito que o profissionalismo tenha sido sempre sobrevalorizado — não apenas no sentido literal de trabalhar por dinheiro, mas também
em aspectos como formalidades e a separação entre vida pessoal e trabalho. Inconcebível como poderia parecer em, digamos, 1970; eu
creio que o profissionalismo era uma moda, ditada pelas condições que por acaso eram as existentes no século XX.
Uma das mais poderosas dessas condições era a existência de “canais”. De forma reveladora, o mesmo termo era usado tanto para
produtos quanto para a informação: existiam os canais de distribuição, e os canais de rádio e TV.
Era pelo fato do canal ser tão estreito que os profissionais pareciam ser superiores aos amadores. Existiam poucos empregos como jornalistas, por exemplo, de forma que a competição garantia que o jornalista médio fosse razoavelmente bom. Por outro lado, qualquer um pode expor suas idéias em um bar. E desse jeito, a pessoa média que está se expressando no bar parece um idiota comparado com um jornalista escrevendo sobre o assunto.
Na Web, a barreira para publicar suas idéias é ainda mais baixa. Você não precisa comprar uma bebida, e até mesmo crianças podem entrar para
participar. Milhões de pessoas estão publicando online, e a média da qualidade do que eles estão escrevendo, como você pode esperar, não é
muito boa. Isso pode ter feito com que alguns que trabalham na mídia tenham concluído que os blogs não são uma ameaça muito grande — que
eles são apenas uma modinha.
Na verdade, a moda é a palavra “blog”, pelo menos na forma que a mídia impressa a usa hoje. O que eles querem dizer por “blogueiro” não é aquele que publica online no formato de um weblog, mas qualquer um que publica online. Isso vai se tornar um problema a medida que a Web se
tornar o meio padrão de publicação. Queria então sugerir uma palavra alternativa para qualquer um que publica material online. Que tal
“escritor”?
Aqueles na mídia impressa que fazem pouco dos que escrevem online devido a baixa qualidade média estão deixando perdendo um ponto
importante: ninguém lê o blog médio. No mundo dos canais, fazia sentido falar em termos de qualidade média, uma vez que era aquilo que
você ia ter, gostando ou não. Mas agora você pode ler qualquer escritor que quiser. Dessa forma, a mídia impressa não está competindo
com a qualidade média do material online. Eles estão competindo contra o melhor material online. E, assim como a Microsoft, eles estão
perdendo.
Posso dizer por experiência própria como leitor. Apesar da maior parte das publicações estarem online, eu provavelmente leio dois ou três artigos em sites pessoais para cada artigo que leio no site de um jornal ou revista. E quando eu leio, por exemplo, histórias do New York Times, eu nunca
as encontrei através da página inicial do Times. A maior parte eu encontrei por agregador de notícias, como o Google News, Slashdot, ou o Delicious. Agregadores mostram o quanto eles podem ser melhores que o canal. A primeira página do New York Times é uma lista de artigos escritos por pessoas que trabalham para o New York Times. Delicious é uma lista de artigos que são interessantes. E apenas quando você os coloca lado a lado você percebe quão pouca superposição entre os dois conjuntos existe.
A maior parte dos artigos na mídia impressa é sem graça. Por exemplo, o presidente percebe que um grupo significativo dos eleitores acham
que invadir o Iraque foi um erro, logo ele faz um discurso à nação para conseguir apoio. Onde está a notícia nisso? Eu não escutei o discurso, mas provavelmente serei capaz de dizer o que foi dito. Um discurso como esse não é, no sentido mais literal, novidade. Não há nada de novo nele.[3]
Assim como não há nada de novo, exceto os nomes e os locais, na maior parte das notícias sobre as coisas que não estão dando certo. Uma criança é
sequestrada; ocorrência de tornado; uma balsa que naufraga; alguém é atacado por um tubarão; um acidente envolvendo um pequeno avião. E o
que se aprende dessas histórias? Absolutamente nada. São apenas pontos fora da curva de informação; o que os torna extraordinários também os
torna irrelevantes.
Assim como em software, quando os profissionais produzem esse tipo de lixo, não é de se surpreender que os amadores conseguem fazer coisa melhor. Viva em função do canal, morra em função do canal: se você depende de um oligopólio, você passa a ter hábitos ruins que são difíceis de superar, quando instantaneamente se passa a ter competição. [4]
Locais de trabalho
Outra coisa que os blogs que o software open source tem em comum é que eles geralmente são feitos por pessoas trabalhando em casa. Isso pode
não parecer surpreendente. Mas deveria. É o equivalente arquitetural de um avião artesanal derrubando um F-18. Empresas gastam milhões para
construir edifícios com um único propósito: ser um local para se trabalhar. E mesmo assim, pessoas que trabalham em suas próprias casas, que nem foram projetadas para ser locais de trabalho, acabam sendo mais produtivas.
Isso prova algo que muitos de nós já suspeitava. O escritório comum é um lugar horrível para conseguir fazer alguma coisa. E muito daquilo que torna o escritório um lugar ruim são as qualidades que associamos com o profissionalismo. A esterilidade dos escritórios deveria sugestionar eficiência. Mas sugestionar eficiência é um tanto diferente de ser eficiente.
A atmosfera no local de trabalho comum é tão importante para a produtividade quanto o fato de ter chamas pintadas na lateral de um carro é importante para a velocidade. Não é apenas uma questão da maneira que os escritórios se apresentam que são fracas. A maneira que as pessoas agem é igualmente ruim.
As coisas são diferentes em uma startup. Quase sempre uma startup começa em um apartamento. Ao invés de cubículos coordenados de cor bege, eles têm meia dúzia de peças de mobília que foram compradas de segunda mão. Trabalham em horários esquisitos, usando as roupas mais informais. Fazem o que quiser online, sem ter que se preocupar se aquilo que estão olhando é “adequado para o trabalho”. O linguajar sem graça do escritório é substituído por humor sagaz. E quer saber? Uma empresa nesse estágio é provavelmente o mais produtiva que ela vai ser em toda a sua vida.
Talvez não seja coincidência. Talvez alguns aspectos do profissionalismo levem a uma perda geral de produtividade.
Para mim, o aspecto mais desmoralizante de um escritório tradicional é que se espera que você esteja lá em horários determinados. Geralmente, costuma-se ter algumas pessoas que realmente precisam estar lá nesse horário, mas a razão pela qual os empregados trabalham horários fixos é que a empresa não consegue medir sua produtividade. A idéia central por trás de horas de trabalho é que, se você não consegue fazer com que as pessoas possam trabalhar, ao menos você pode prevenir que elas se divirtam. Se os empregados têm que estar no escritório um certo número de horas no dia, e são proibidos de fazer coisas não relacionadas a trabalho enquanto estão lá, então eles só podem estar trabalhando. Na teoria. Na prática eles passam a maior parte do tempo numa terra de ninguém, onde ninguém está nem trabalhando, nem se divertindo.
Se você pode medir o quanto de trabalho as pessoas realizaram, muitas empresas não precisariam de um dia de trabalho fixo. Você poderia
simplesmente dizer: isso é o que você tem que fazer. Faça quando quiser, onde quiser. Se o seu trabalho requer que você mantenha contato com alguém, então você precisa estar aqui um certo tanto de tempo. De qualquer outra forma, não nos importamos.
Isso pode parecer utópico, mas era o que dizíamos para as pessoas que vinham trabalhar na nossa empresa. Não havia horário fixo de trabalho. Eu mesmo nunca aparecia antes das 11. Mas não dizíamos isso para ser benevolentes. Estávamos querendo passar a mensagem: se você trabalha aqui esperamos que você realize muito trabalho. Não tente enganar a gente ao ficar aqui muito tempo.
O problema com o modelo de tempo presente é que não é apenas desmoralizante, mas que as pessoas que fingem estar trabalhando interrompem aquelas que estão trabalhando sério. Estou convencido que o modelo de tempo presente é a maior razão para que as grandes organizações têm tantas reuniões. Per capta, as grandes organizações produzem muito pouco. E mesmo assim as pessoas têm que estar presentes oito horas por dia. Quando tanto tempo passa e com tanto resultado produtivo, é alguma coisa que tem que estar se passando. E reuniões são o mecanismo principal de se esconder a falta de trabalho.
Por um ano eu trabalhei em um emprego típico, das 8 às 17, e lembro muito bem o sentimento estranho, aconchegante que eu tinha durante as
reuniões. Eu estava um tanto ciente, devido a novidade, que eu estava sendo pago para programar. E me parecia fantástico ter a sensação que tinha uma máquina na minha mesa que me dava um dólar a cada dois minutos, não importando o que eu fizesse. Até mesmo quando eu estava no banheiro! Mas pelo fato da máquina estar sempre funcionando, eu sentia que eu deveria estar sempre trabalhando. E as reuniões, então, pareciam magnificamente relaxantes. Elas contavam como trabalho, assim como programar, mas eram um tanto mais fáceis. E tudo que você tinha que fazer é sentar e parecer que estava prestando atenção.
Reuniões são análogas ao ópio, mas com um efeito dominó. Assim como é o email, em uma escala menor. E além da adição do custo direto em tempo, há o custo devido à fragmentação– quebra o dia das pessoas em pedaços tão pequenos que não conseguem ser aproveitados.
Você pode ver o quanto você está dependente de algo quando o remove repentinamente. Assim, para grandes empresas, eu proponho o seguinte
experimento. Reserve um dia onde reuniões são proibidas - onde todos têm que ficar em suas mesas o dia todo e trabalhar sem interrupção em
coisas que eles podem fazer sem falar com mais ninguém. Alguma quantidade de comunicação é necessária em seus trabalhos, mas eu tenho
certeza que muitos empregados vão encontrar coisas que eles podem fazer que sejam suficientes para preencher oito horas de trabalho. Vocês podem chamá-lo de “Dia Útil”.
O outro problema é que o trabalho de mentirinha é que ele costuma ter uma melhor aparência que trabalho de verdade. Quando eu estou escrevendo ou programando eu gasto tanto tempo simplesmente pensando quanto o tempo que eu fico realmente digitando. Metade do tempo eu estou sentado com uma xícara de chá na mão, ou passeando pela vizinhança. Essa é uma fase crítica - de onde as idéias vêm - e mesmo assim eu me sentiria culpado de fazer isso em um escritório, com todo mundo parecendo ocupado.
É difícil ver o quanto é uma prática ruim até que você tem algo para servir de comparação. E essa é uma razão pela qual o open source, e até mesmo o blogging em alguns casos, são tão importantes. Eles nos mostram como que se parece o trabalho de verdade. Estamos bancando oito startups nesse momento. Um amigo meu perguntou o que eles estão procurando em relação aos imóveis para seus escritórios, e ficou surpreso quando disse que eu esperava que eles usassem os apartamentos em que por ventura estivessem morando. Mas não propusemos isso para que eles economizem dinheiro. Nõs propusemos isso pois queríamos que o software ficasse bom. Ter pocilgas informais é uma das coisas que as startups fazem corretamente sem nem mesmo perceber. Assim que você arruma um escrítório, vida pessoal e profissional passam a tomar rumos opostos.
Esse é um pilares do profissionalismo. Vida pessoal e profissional devem se manter separadas. Mas essa parte, estou convencido, é um erro.
Bottom-Up
A terceira importante lição que se aprende com o open source e o blogging é que as idéias borbulham, de baixo para cima, ao invés de fluir do topo. Open source e blogging funcionam bottom-up: as pessoas fazem o que querem, e o que for melhor prevalece.
Soa como algo familiar? É o princípio de uma economia de mercado. Ironicamente, embora o open source e o blogging sejam feitos de graça, esses universos se assemelham a economias de mercado. Enquanto isso, apesar de toda a sua conversa a respeito da importância das economias de mercado, são gerenciadas como estados comunistas.
Há duas forças que, em conjunto, direcionam o design: as idéias sobre quais são os próximos passos a serem tomados, e a busca pela qualidade. Na era dos canais, ambos vinham do topo. Por exemplo, editores de notícias passavam histórias aos repórteres, e depois editavam o que eles escreviam.
Open source e blogging nos mostram que as coisas não precisam ser desse jeito. Idéias e até mesmo a garantia de qualidade podem surgir de baixo pra cima. E em ambos os casos, os resultados não são apenas aceitáveis, mas melhores. Por exemplo, software open source é mais confiável justamente por ser open source; qualquer pode encontrar possíveis falhas.
O mesmo acontece com a escrita. A medida que chegamos perto da época de publicação, eu descobri que estava um tanto preocupado com um dos ensaios que estava Hackers & Painters que não estava online. Só depois que um ensaio já tem uns dois mil acessos, eu me sinto razoavelmente confiante nele. Mas esse passou por um escrutínio ordens de magnitude menor. Eu me senti como liberando software para uso sem ter testado.
E era dessa forma que toda publicação costumava ser. Se você conseguia dez pessoas para ler o seu manuscrito, você era um cara de sorte. Mas eu me acostumei tanto com a publicação online que o velho método me pareceu preocupantemente falho, assim como navegar por pura lembrança depois que você já está acostumado a usar um GPS.
A outra coisa que eu gosto a respeito de publicações online é que você pode escrever o que quiser e publicar quando quiser. No começo desse ano, eu escrevi algo que pareceu adequado para uma revista, e enviei para um amigo editor. Enquanto esperava por uma notícia, fiquei surpreso quando percebi que queria que o material fosse rejeitado. Assim eu poderia publicá-lo online imediatamente. Se eles aceitassem, ele não seria lido por ninguém em meses, e no meio-tempo eu teria que lutar palavra-por-palavra para evitar que ele fosse desmantelado por algum editor de 25 anos de idade [5].
Muitos empregados gostariam de fazer grandes coisas pelas empresas pelos quais eles trabalham, mas frequentemente a gerência não os permite. Quantos de nós já ouviram falar de histórias de empregados conversando com a gerência e dizendo “por favor deixe que a gente faça isso para ganhar dinheiro para vocês” - e a empresa dizer não? O exemplo mais famoso é Steve Wozniak, que originalmente quis contstruir computadores para o seu empregador da época, a HP. E eles recusaram. No estupidômetro, esse episódio se equipara com a IBM assinando a licença não exclusiva pelo DOS. Mas eu acredito que isso aconteça com todos nós. Nós apenas não ouvimos comumente, porque para provar que você tem razão você tem que largar seu emprego e iniciar sua própria empresa, do jeito que Wozniak fez.
Startups
Essas são as três grandes lições que eu acredito que o open source e o blogging têm a ensinar aos mundo dos negócios: (1) que as pessoas trabalham com mais afinco em algo que elas gostam, (2) que o ambiente do escritório-padrão é muito improdutivo, e (3) que uma produção
bottom-up frequentemente supera o top-down.
Eu até posso imaginar, a essa altura, gerentes dizendo: o que esse cara pensa que está falando? Que bem faz a mim saber que os meus programadores serão mais produtivos se trabalharem em casa em seus próprios projetos? Eu preciso que eles sentem suas bundas na cadeira para trabalhar na versão 3.2 do nosso software, ou nunca iremos conseguir entregar o produto no prazo.
E é verdade, o benefício que esse gerente em particular terá dessas forças que estão surgindo, e acabei de descrever, é quase zero. Quando eu digo “o mundo dos negócios tem a aprender com o open source”, não digo que todo negócio irá. Quero apenas demonstrar como os negócios podem aprender sobre as novas condições do mesmo jeito que uma linha genética “aprende”. Não estou dizendo que as empresas ficarão mais espertas, apenas que as mais burras irão morrer.
Assim, com o que o mundo executivo se parecerá quando assimilarem as lições do open source e do blogging? Creio que o maior obstáculo que impede que nós vejamos o futuro dos negócios é assumirmos que qualquer pessoa que trabalhe para você tem que ser seu empregado. Mas pense sobre o que realmente acontece, por trás dos panos: a empresa possui algum dinheiro, e usa-o para pagar ao empregado, na esperança de que ele produza algo que seja mais valioso do que a empresa paga para ele. Bem, há outras maneiras de organizarmos essa relação. Ao invés de pagar um salário a alguém, que tal se você fizer um investimento? Ao invés de tê-lo no seu escritório trabalhando nos seus projetos, ele pode trabalhar onde bem entender em seus projetos próprios.
Já que poucos de nós conhece nenhuma outra alternativa, nós não temos a menor idéia de quão melhores nós seríamos capazes de fazer, comparado à relação tradicional patrão-empregado. Essa relação patrão-empregado ainda contém um grande pedaço do DNA da relação mestre-escravo. [6]
Eu não gosto de estar em nenhuma das duas posições. Eu sou capaz de “ralar” para manter um cliente satisfeito, mas não gosto que um chefe me diga o que fazer. E ser um chefe também é terrivelmente frustante; na metade das vezes é mais fácil fazer as coisas você mesmo do que arrumar alguém que faça por você. E prefiro fazer qualquer tipo de trabalho, exceto dar ou receber uma avaliação de performance.
Além de suas origens falhas, a relação empregatícia já acumulou muita tranqueira ao longo dos anos. A lista de coisas que não se pode perguntar é tão grande que, por conveniência, eu a considero infinita. Dentro de um escritório você anda pisando em ovos, evitando que alguém diga ou faça algo que torne a empresa uma possível vítima de um processo. E Deus lhe ajude se você demite alguém.
Ter uma empresa processada por questões trabalhistas é o melhor sinal para mostrar que a relação de emprego não é uma relação econômica comum. Em qualquer relação puramente econômica você é livre para fazer o que quiser. Se você quiser parar de comprar tubos de aço de um fornecedor e começa a comprar de outro, você não tem que se explicar o porquê. Ninguém pode lhe acusar de mudar de fornecedor injustamente. A Justiça implica alguma forma de relação paternal que não deveria existir em transações entre iguais.
A maior parte das restrições legais sobre os empregadores tem a intenção de proteger os empregados. Mas você não pode ter uma ação sem uma reação igual e em sentido contrário. Você não pode esperar que os empregadores tenham uma relação paternal com seus empregados sem colocar os empregados em uma posição que sejam tratados como crianças. E esse parece ser um caminho ruim para ser trilhado.
A próxima vez que você estiver em uma cidade moderamente grande, passe por uma agência dos correios (Nota do tradutor: ou qualquer repartição pública) e observe a linguagem corporal das pessoas que lá trabalham. Elas possuem o mesmo ressentimento que as crianças mostram quando são obrigadas a fazer algo que não querem. O Sindicato já precisou os aumentos de salários e as restrições de trabalho que causariam inveja às gerações anteriores que lá trabalharam, mas mesmo assim eles não se sentem muito felizes com isso. É desmoralizante estar no lado receptor de uma relação paternalista, não importa o quão confortável sejam os termos. Pergunte para qualquer adolescente.
Eu vejo as desvantagens dessa relação patrão-empregado pois já estive nos dois lados de uma melhor: a relação investidor-fundador. Eu não diria que é algo indolor. Quando eu tinha a minha startup, o ato de pensar nos meus investidores era capaz de me manter acordado. E agora que sou um investidor, pensar nas nossas startups é que me deixa sem dormir. Toda aquela dor de tentar resolver qualquer problema que você esteja tentando resolver ainda existe. Mas a dor é menos dolorida quando não está misturada com ressentimento.
Eu tive o azar de participar no que se tornou um experimento controlado que provou isso. Depois que o Yahoo comprou a nossa startup eu fui trabalhar para eles. E para o meu desespero, eu comecei a agir como uma criança. A situação mexia comigo de forma que eu esqueci que era capaz.
A maior vantagem de investimento comparado com o emprego, do jeito que o open source e o blogging sugerem, é que as pessoas trabalhando em seus próprios projetos são muito mais produtivas. E uma startup é um projeto próprio em dois sentidos, ambos importantes: é seu projeto, criativamente e economicamente.
Google é um exemplo raro de uma grande empresa que está sintonizada com essas forças descritas. Eles trabalharam duro para fazer que seu escritório fosse menos estéril que o “mar de cubículos” tradicional. Eles dão um bom lote de ações aos empregados que realizam algo extraordinário, no intuito de simular as recompensas de uma startup. Eles até deixam que os os hackers passem 20% do seu tempo trabalhando em seus próprios projetos.
Por que não, então, deixar as pessoas trabalharem em 100% do seu tempo em projetos próprios e, ao invés de ficar tentando estimar o valor daquilo que criam, darem a eles o real valor de mercado? Impossível? Isso é, na verdade, exatamente o que os investidores de risco fazem.
Então, estou dizendo que ninguém mais vai ser um empregado? Que todos devem começar a sua própria startup? Claro que não. Mas hoje, há mais pessoas que podem fazer isso do que o número de pessoas que estão fazendo. Hoje em dia, até o mais brilhante dos estudantes sai da faculdade acreditando que eles tem que conseguir um emprego. Na verdade, o que eles precisam é fazer algo que possa ser avaliado. Um emprego é uma maneira de se fazer isso, mas os mais ambiciosos comumente estarão melhores se pegarem dinheiro com um investidor, ao invés de pegar com seu empregador.
Programadores costumam pensar que negócios é algo para os MBAs. Mas admnistração de negócios não é o que você está fazendo em uma startup. O que você está fazendo é a criação de um negócio. E a primeira fase disso é basicamente a criação do produto, ou seja, programar. Essa é a parte difícil. É bem mais difícil criar algo que as pessoas venham a gostar do que obter algo que as pessoas venham a amar e descobrir como ganhar dinheiro com isso.
Outra coisa que mantém as pessoas distantes de montar sua startup é o risco. Alguém com uma hipoteca para pagar e filhos para sustentar deveria pensar duas vezes antes. Mas a maior parte dos hackers não tem nada disso.
E assim como o exemplo do open source e do blogging, você vai gostar muito mais, mesmo que falhe. Você vai trabalhar no seu próprio projeto, ao invés de de ir para algum escritório e fazer algo que lhe dizem. Talvez até exista mais sacrifício em sua própria empresa, mas não será tão dolorido.
Talvez esse seja, no fim das contas, das forças subjacentes do open source e blogging: finalmente acabar com a relação patrão-empregado e substituí-la por uma puramente econômica, entre iguais.
Notas
[1] Pesquisa realizada pelo Forrester Research apresentada na matéria de capa da Business Week, em 31 de Janeiro de 2005. Aparentemente alguém acreditava que você tinha que trocar a máquina do servidor, para poder trocar de sistema operacional.
[2] Ela deriva da palavra latina trepalium, um mecanismo de tortura que possuia três estacas. Não sei dizer como as estacas eram usadas. “Travel” possui a mesma raíz etimológica.
[3] Seria muito mais inédito, nesse aspecto, se o presidente tivesse que responder perguntas diretas, sem saber o conteúdo anteriormente, em uma entrevista coletiva.
[4] Um meio de medir a incompetência dos jornais é que muitos ainda fazem com que você registre-se no site para ler as matérias. Eu ainda não encontrei nenhum blog que tentasse fazer isso.
[5] Eles aceitaram o artigo, mas eu levei tanto tempo para entregar a versão final que na hora que eu acabei de fazer a seção para revista que aceitou o artigo, ele tinha desaparecido em uma reorganização.
[6] A palavra “boss” deriva da palavra Holandesa baas, que significa “mestre”.
