Android Developer Challenge

Se uma empresa produz sistemas operacionais e deseja que a sua plataforma domine o mercado, ela tem duas opções:

  1. Colocar o seu CEO num palco de uma conferência, e pedir que ele fique gritando “developers, developers, developers” até perder a voz.
  2. Prover um ambiente de incentivo econômico para que desenvolvedores utilizem a sua plataforma, no lugar de outras alternativas.

Imagino que o pessoal da Google tenha respeito por suas cordas vocais, pois eles optaram pela segunda opção. Foi anunciado o Android Developer Challenge. A “competição” prevê prêmios para pessoas que desenvolvam novos aplicativos para a plataforma Android, totalizando até US$10 milhões.

Enquanto não há nenhum handset fabricado e pronto para o mercado, os prêmios serão pagos para as melhores propostas e idéias mais promissoras que possam fazer uso da tecnologia oferecida pelo Android. Até o começo de março de 2008, serão aceitas propostas de aplicativos. As 50 melhores propostas receberão um prêmio de US$ 25 mil. Depois disso, quando os celulares começarem a entrar no mercado e os aplicativos já puderem ser testados em campo, serão premiados os 20 melhores (entre os 50 qualificados), com prêmios de US$ 100 mil e US$ 275 mil.

A iniciativa é um reflexo dos tempos. Numa época em que aparelhos celulares são oferecidos de graça por operadoras de telefonia e que esses aparelhos são capazes de rodar sistemas operacionais livres, gratuitos e de qualidade, é difícil conseguir penetração em um mercado maduro. A alternativa, então, passa a ser fomentar desenvolvedores e criar um ecossistema de inovação na sua plataforma.

Alguém aí quer participar? Entre em contato.

PC 2.0

Enquanto boa parte da molecada por aí que ainda não aprendeu a pensar por conta própria ficou triste com o anúncio da Google que encerrava as especulações sobre o gPhone, ficando sem imagens que pudessem copiar para os seus (spam-)blogs, e por tabela sem assunto para entupir os agregadores de conteúdo com notícias idênticas, o “velhaco” aqui parou para pensar no impacto e no potencial futuro da Open Handset Alliance. Eu vi, e gostei. Um plano como esse é uma lição clara de quem aprendeu com o Passado para pensar o Futuro.

Se você não entendeu o que estou falando, fique tranquilo. Vamos por partes.

Computação Pessoal

Computeiros, tautologicamente, têm suas vidas focadas no computador. Ficamos com o tocador de música ligado o dia inteiro, com nossas coleções imensas de canções nem sempre obtidas legalmente. Resgatamos contato com nosso amigo que se mudou para o Curdistão para popularizar o futebol de botão. Mantemos nossas memórias, vídeos, fotos, cartinhas de amor que queríamos enviar para a nossa musa mas ficamos com vergonha de mandar, já que você, no fundo, no fundo, sabia que não era muito romântico declarar algo como “você é tão bela quanto a Lara Croft no Tomb Raider 2″. O computador é o meio, começo e o fim de boa parte de nosso cotidiano.

Para nós e para os profissionais que já estão fazendo parte diretamente ou indiretamente da Economia Digital, a linha que separa o computador-pessoal do computador-ferramenta-de-trabalho é tênue, cada vez mais imperceptível. Entretanto, há muitos outros que olham o computador como uma besta indomável, complexa, para não dizer supérflua.

Isso não quer dizer, entretanto, que eles estão livres da evolução tecnológica. Mesmo aqueles que se recusam a sentar na frente de um monitor estão fazendo parte da revolução que começou nos anos 80, da Computação Pessoal.

Vou tentar simplificar: Computação Pessoal é tudo que envolve o uso de um computador, cuja finalidade principal não é o trabalho. Aquela viagem chata que você levava o Game Boy? Computação Pessoal. O seu primeiro Discman? Computação Pessoal. O seu decoder de tv a cabo? Câmera Digital de 32 Gigapixels? Tudo é Computação Pessoal.

O ponto mais interessante. Mesmo os tecnófobos, estes que não sabem nem mexer em um mouse, provavelmente têm o seu “Computador Pessoal”. À diferença de nós, estes fazem uso da tecnologia através de outro dispositivo. Para eles, o PC é outro e cabe no bolso: é o telefone celular.

Acho que o que eu escrevi acima não é nenhuma novidade. A velocidade do ciclo de desenvolvimento dos aparelhos celulares, as toneladas de funcionalidade presentes nos aparelhos mais básicos, as inúmeras apresentações de executivos falando sobre a questão da convergência digital, etc, etc. Você não precisa de mais um blogger chato querendo dizer “Eureka! Celulares vão se tornar tão poderosos quanto computadores”, não é mesmo?

Padronização do Desktop: um pouco de História.

Computadores, hoje, são quase oni-presentes e aparentemente são bastante diferentes. Mas, por baixo de marca, gabinete, ou até mesmo sistema operacional, todos acabam sendo muito parecidos. Todo mundo (e por todo mundo, entenda “mais de 99,99% dos consumidores normais”) tem um computador que usa um chip com arquitetura x86 (ou alguma extensão dela, como a x86-64). Placas auxiliares são instaladas em slots padronizados (AGP, PCI ou PCI-x). Periféricos se comunicam através de USB. Comunicação sem fio é predominantemente feita por Wi-Fi (802.11*).

Tudo isso não acontece por acaso. São padrões determinados pela indústria, com o propósito primário de facilitar o desenvolvimento e a fabricação de componentes para um sistema complexo. Assim, subsistemas desse sistema complexo podem ser trocados com razoavel segurança. Assim como eu sei que eu posso colocar qualquer motor elétrico de 110V na tomada aqui de casa, eu sei que eu posso comprar qualquer Pen Drive USB para o meu computador, e sei que vai funcionar.

É claro que essa padronização não surgiu de uma hora para outra. Os primeiros mini-computadores e computadores que pretendiam ser de uso doméstico tinham arquiteturas completamente diferentes entre si. Um computador como o Altair rodava apenas programas feitos para ele, e era arquiteturalmente diferente de um TRS-80. Um usuário entusiasta de um computador aprendia a programar para uma máquina e assim ficava, pois não havia necessidade de portar seu aplicativo para outra arquitetura.

Isso é muito comum, se analisarmos o progresso e a evolução de inventos humanos. Traçando um paralelo com a teoria de evolução de Darwin, uma nova tecnologia pressiona o surgimento de novos produtos (assim como uma mudança no ambiente causa um aumento no número de mutações genéticas em espécies já existentes), e desses novos produtos sobrevivem os que se mostram mais aptos ao ambiente (o produto que satisfaz melhor o público é o que acaba sendo mais copiado e prospera), determinando qual será a tendência de design de produtos. Veja como os aparelhos de TV e os primeiros aviões eram diferentes entre si, e vejam o quanto eles são similares hoje em dia. Dá pra sacar que, até com memes, existe o que é chamado de “survival of the fittest”?

No fim de 1970, as apostas de todos provavelmente seriam na Apple, com o Apple I e com o Apple II. Seus computadores poderosos e fáceis de usar começaram a ganhar momento. Empresas passaram a desenvolver aplicativos para ele. O sucesso do Visicalc serviu como um efeito bola de neve. Mais pessoas queriam o Apple por conta do Visicalc, que aumentava o interesse dos desenvolvedores pela plataforma Apple, que fazia da Apple a arquitetura com uma coleção de software mais interessante. Darwin trabalhava, enquanto a concorrência padecia. Por mais simples que fossem as arquiteturas da época, era trabalhoso portar software. Muitos programas ainda eram desenvolvidos em linguagem de máquina. Compiladores BASIC eram caros e para profissionais. A Apple parecia a grande vitoriosa.

Parecia. A Apple passou a ter concorrência da IBM e do padrão PC. Aproveitando a explosão do mercado de computadores para uso doméstico, a IBM deu a sua tacada: um padrão livre, que pudesse ser seguido por qualquer que quisesse montar um computador compatível. Dessa forma, uma empresa que quisesse entrar no mercado de desktops poderia fornecer apenas um componente do produto, ao invés de ter que desenvolver todo um computador (e ainda ter que tentar competir com a Apple). Isso também serviu para incentivar a concorrência, o que levou a uma redução acelerada dos custos.

Vá lá: tudo que a IBM acertou com o padrão-PC, ela errou ao ter dado uma licença de fornecimento exclusiva do Sistema Operacional para uma empresa pequena, chamada Micro-soft-com-hífen. Mas a estratégia do padrão aberto funcionou. A Apple, que manteve-se verticalizada (oferecendo hardware e software) acabou perdendo terreno para os milhares de concorrentes horizontais que trabalhavam no padrão IBM-PC.

Fale com o Miguel, se quiser mais detalhes da história da Apple. Mas vou resumir: eles teimaram um bom tempo em manter-se verticais, e só recentemente abriram mão disso, e foram obrigados a admitir que a estratégia vertical não deu certo. O hardware de um Macintosh é, hoje, virtualmente idêntico ao de um computador da HP ou da Dell. Para desgosto de muitos fanáticos, hoje é um Intel que roda em Macs. Até mesmo software para o mercado de DTP tem menos features em suas versões para Mac OS, comparada com a versão para Windows. Muito do charme some quando se tira o teclado com backlight.

Pois bem. Não é de hoje que o mercado de desktop é chato, sem grandes surpresas. Como eu já disse antes, POSIX já ganhou, e boa parte do pacote de soluções que gerou bilhões para a Microsoft-sem-o-hífen já é “good enough” há uns bons 6 anos.
Se é que existe alguma coisa que ainda é sexy para desenvolvedores, isso está em aplicativos que fazem uso da Internet e dos avanços de telecomunicações.

O Mercado de Mobile

Entra o mercado de mobile. Acho que foi em 1999 que meu pai chegou em casa com um StarTac, da Motorola. O que tinha de especial? Pouca coisa, além de um desenho moderno e o fato de ser um dos primeiros modelos no Brasil que foram trazidos para as linhas digitais. De qualquer forma, podemos ver o quanto mudou em apenas 8 anos. Celulares hoje em dia mandam mensagens de texto, mensagens multímidia, possuem câmera integrada, mp3, possuem jogos, conectam à internet, fazem cafezinho e até pagam suas contas - inclusive aquela conta absurdamente cara da sua última fatura de celular.

Tudo muito legal, tudo muito divertido. Mas ainda falta alguma coisa. Por exemplo: e se eu quiser trocar a minha câmera digital? Ou como faço para adicionar um HD ao meu smartphone? E se eu quiser usar outra bateria, ou adicionar uma placa que me permita usar dois chips GSM no mesmo aparelho?

Mudanças em hardware, nem pensar. Software deveria ser um pouco mais flexível, mas ainda está longe do satisfatório. Diferentes sistemas operacionais, diferentes versões, diversos padrões de rede (GSM, CDMA, iDen, entre outros) e - mais importante - diferentes plataformas de desenvolvimento de software fazem com que planejar um produto para o mercado mobile seja tão fácil quanto atirar em um grilo usando uma escopeta numa sala pequena, depois de tomar meia garrafa de tequila. Chamar de “mercado dinâmico” é um eufemismo. É um mercado caótico.
Quer adicionar uma outra variável na brincadeira? A penetração de aparelhos celulares é muito maior que a de computadores domésticos. No Brasil, já passamos há tempo a marca de 60 milhões de aparelhos ativos. Isso passa (em muito) o número de computadores. Na Itália, mais de 90% da população possui telefone celular. Os números de usuários de Internet não chegam à metade. O celular é, sem dúvida, o Verdadeiro Computador Pessoal.

E aí apareceu a oportunidade de ouro para a Apple e o iPhone. Do mesmo jeito que fizeram com o Apple I e com o Apple II, a estratégia para o iPhone é reduzir o número de subsistemas (poucos aplicativos de terceiros, sistema operacional próprio, software próprio) e lutar para manter controle sobre cada uma das partes. Quem melhor que Steve Jobs, com seu senso de design, para delimitar o melhor ponto para atender todos os requisitos conflitantes que existe num mercado caótico como o mobile?

Enquanto todos batem cabeça e não se entendem, a Apple usa a sua vantagem como fabricante de hardware e espera neutralizar as operadoras de telefonia futuramente, apostando no crescimento do Wi-Fi e pensando que o seu iPhone poderá ser um telefone (VoIP) e, principalmente, como um dispositivo para a distribuição de conteúdo digital. Só depois, e quando for do seu interesse, ela precisaria abrir o iPhone para terceiros. Ela nem mesmo precisaria ter um “Visicalc”, pois ela já se encarregou de fazer isso antes: chama-se iTunes Music Store.

Do jeito que se vê hoje, a Apple tem tudo em mãos para se tornar a força dominante do mercado de mobile computing. A vingança de Steve Jobs, tardia, seria em sua dominação do Verdadeiro Computador Pessoal.

Android: estamos de novo em 1981

Not so fast, Steve. Você acreditou mesmo que todo mundo ia ficar assistindo você ficar com todo o bolo? As operadoras de telefonia ainda querem briga. E aqueles que desenvolvem software também precisam ter um ambiente onde eles sabem que seu sistema rode sem que eles tenham que pedir permissão para ninguém.

Qual a melhor maneira de garantir isso? Ora, lançando um padrão de referência para quem quiser desenvolver dispositivos móveis! Foi exatamente isso que a Google fez essa semana. Ao invés de lançar um aparelho de celular, foi anunciado o Android. O Android é uma plataforma aberta de desenvolvimento, com especificação de sistema operacional, middleware e aplicativos finais. Quem quiser desenvolver um aplicativo para um celular que seja Android, basta trabalhar de acordo com a spec.

Os fanáticos por Java vão apontar para o JavaME, como forma de ter uma plataforma de desenvolvimento livre e definida. Eu vou dizer “Nice try, but no.” Do mesmo jeito que acontece no desktop, aplicativos JavaME acabam limitados pela qualidade da implementação das bibliotecas que funcionam “embaixo”. Por exemplo: assim como um toolkit como o SWT tem que ser um mínimo denominador comum entre os ambientes gráficos subjacentes (GTK, MFC, Cocoa), uma implementação de JavaME é, no máximo, tão poderosa quanto o pior sistema usado atualmente nos aparelhos celulares. O padrão do Android é a partir do zero, não fica obrigado então a fazer nenhum tipo de compromisso por conta de limitação tecnológica.

Em suma: Android é a versão mobile do padrão IBM-PC. Não importa se você for um desenvolvedor de aplicativo ou de componentes para celular, você poderá ter um pouco mais de segurança na hora de começar o seu investimento. Isso levará a muita inovação no mercado, pois teremos mais empresas tentando arriscar algo novo, sem medo de ver seu investimento sendo jogado fora por alguma reorientação tecnológica. Isso levará a redução ainda maior de custos. De comoditização total de hardware. Até mesmo podemos pensar em maior integração entre serviços que hoje só são pensados para web. Um celular Android poderá, efetivamente, tornar-se o PC 2.0.

Apple vs o resto. Dessa vez, até pode ser diferente.

Cabe a Apple decidir se vai querer que o iPhone se torne um sucesso como o Mac ou como o iPod. Usuários (e lucros) ela terá em qualquer hipótese. Entretanto, a insistência da Apple em manter todo o controle da arquitetura se mostrou falha na guerra dos desktops. Até hoje, com geeks tietando a Apple da mesma forma que adolescentes tietavam Britney Spears, o mercado da Apple não passa de magros 3%. Será que ela vai se posicionar, de novo, para manter apenas um nicho ou pretende ir para as cabeças?

Dois fatores pesam a favor, dessa vez. O primeiro: é muito difícil que o Google faça por alguma empresa o que a IBM fez pela Microsoft, o que levaria a uma grande procura por celulares com o padrão Android e a um possível monopólio de algum serviço dentro dele. O outro: o mercado de mobile business está bem mais maduro, hoje, do que o mercado de computadores era em 1981. Quase metade dos habitantes do planeta usa um celular, e a imensa maioria já está acostumada a mudar de aparelho a cada 18 meses. Não há nada que impeça que eles resolvam fazer a mudança.

De um jeito ou de outro, é uma época bem interessante para trabalhar com o desenvolvimento de aplicações para o Verdadeiro Computador Pessoal.

Ajudando a comprar a vara e o anzol

Um antigo dito diz: “Dê um peixe a alguém, e ele terá comida para um dia; ensine-o a pescar e ele terá comida para toda a vida”. Bom, isto é meia verdade, afinal de contas, de nada adianta saber pescar se você não tiver condições de comprar vara, anzol, linha …

Seguindo esta linha de raciocínio, um grupo de pessoas criou o Kiva - um site cujo objetivo é colocar pessoas interessadas em ajudar os menos favorecidos, em contato com proprietários de pequenos negócios de países em desenvolvimento, permitindo que os que assim desejarem, realizem pequenos empréstimos de pelo menos US$ 25,00, com duração de 6 a 12 meses a estes micro-empresários. Durante o período do empréstimo, o credor pode receber notícias sobre o andamento do negócio que recebeu o empréstimo. Uma vez pago o empréstimo, você pode recuperar o dinheiro, ou emprestá-lo para um outro empresário, mantendo assim o ciclo virtuoso.

Para dar confiabilidade a este sistema, o Kiva mantém parcerias com instituições de microcrédito, responsáveis por selecionar os negócios que se qualificam para receber os empréstimos. Estas instituições cadastram os negócios, e você pode então escolher para quem você vai emprestar seu dinheiro. Este sistema mantém o registro destas instituições de micro-crédito, permitindo consultar o grau de confiabilidade da instituição, o montante que ela conseguiu obter em empréstimos para as empresas que cadastrou, e a porcentagem de “calotes” dado pelas empresas cadastradas.

Há outras formas de ajudar, afinal de contas, manter uma estrutura dessas, de alcance mundial não é fácil. Dessa forma, aqueles que desejarem podem se voluntariar para ajudar a manter e desenvolver o Kiva, ou mesmo trabalhar lá. Existe ainda a possibilidade de se tornar um Kiva Fellow, e ter então a oportunidade de viajar e trabalhar diretamente com uma instituição de microcrédito, e ver com seus próprios olhos o impacto dos empréstimos.

Atualmente, só há empresários da África e da Ásia cadastrados para receber empréstimos. Esta situação deve mudar, uma vez que há várias instituições dos outros continentes que se associaram recentemente ao Kiva. É bom ressaltar, que esta idéia é apoiada por empresas como Google, Microsoft, Yahoo, Starbucks, além de instituições como Clinton Global Initiative e WK Kellog Foundation

Está é uma idéia muito boa, e mostra como a tecnologia que desenvolvemos pode ser empregada para mudar a vida dos menos favorecidos. Não fosse o poder agregador da Internet, nada disso seria possível, ao menos não nesta escala. Conheça este projeto, e se possível, ajude a fazer a vida de outros melhor.


Kiva - loans that change lives

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Quando esse pessoal vai aprender?

Eu lembro da época em que o orkut não tinha sido “dominado” por usuários do Brasil. A coisa era nova, mesmo com redes sociais já existentes e boa parte dos americanos usando o Friendster. Isso foi num remoto 2004.

Eu gostava do orkut porque me serviu para entrar em contato com outras pessoas, que não eram rock-stars da internet, mas mesmo assim com algo legal a dizer e - mais importante - coisas legais para mostrar. Essa era uma época que o Alan Cox participava do orkut (se você não sabe quem é: ele foi por muito tempo uma das maiores referências do desenvolvimento do kernel do linux, sendo o responsável pela versão 2.2) e escrevia nos fóruns, tinha mensagens sobre os eventos do qual participava, et cetera.

Era possível entrar em uma comunidade sobre, sei lá, arquitetura MIPS e ver que tinha gente que trabalha e vive de desenvolvimento em sistemas para essa arquitetura. Era possível buscar referências diretamente com os responsáveis por uma atividade. Por exemplo: você sabia que o MIPS é base dos SoC de boa parte das impressoras, scanners e set-top boxes de televisão?

E não era só isso: tinha gente com perfis simples, mas que apareciam e participavam de comunidades sobre Filosofia, Economia, Gastronomia, discussões sobre tipos de perfil psicológico usando o critério Meyer-Briggs, tudo, tudo, tudo. Até mesmo planilhas de treinos de natação eu obtive no orkut, conversando com um cara do Canadá que estava se preparando para competições do mesmo nível (café-com-leite, e cloro) que eu participava. Toda sorte de assuntos e de idéias era discutida por pessoas interessadas e interessantes. E o melhor: as pessoas participavam porque elas também aprendiam. Havia muita gente interessante para ser conhecida. A tal da “sabedoria das multidões” funcionava.

Mesmo que - para você - esse tipo de informação seja tão importante quanto saber a escalação completa do time de críquete da Lituânia nos jogos universitários mundiais de 1987, ficava inegável a afirmação que o valor de uma rede social está intrisicamente ligado ao valor dos melhores usuários.

Era uma sociedade composta por elementos de boa estirpe. Havia respeito mútuo. O conhecimento se difundia. Até que aconteceu o que costuma acontecer com coisas boas e acessíveis: o orkut caiu no gosto do povo brasileiro. Nem preciso contar a piada, na qual Deus precisava arrumar alguma coisa ruim para o Brasil para compensar uma região tão rica de recursos naturais e livre de catástrofes, para explicar o que significa o problema que foi essa invasão tupiniquim.

Tomados por uma vaidade adolescente, alguns começaram a criar comunidades do tipo “Vamos fazer do Brasil o país com mais gente no Orkut”. Adicionavam qualquer pessoa que conheciam, na esperança de fazer amigos. Ficaram num pissing contest, perdendo toda oportunidade de entrar em contato com pessoas que de esferas diferentes (geográficas, sociais, intelectuais), para transformar o site na versão virtual de um bairro de periferia. Invadiram comunidades onde a discussão era em inglês com tópicos num (mal-escrito) português, usando o banal argumento do “Brazil rlz. C tem brasileru aki, eu vo fala em portugueis”. Achavam que estavam dando uma banana para os americanos-porcos-imperialistas-que-queriam-impor-a-sua-língua-ao-resto-do-mundo, mas estavam na verdade atrapalhando a vida do indiano (que tem inglês como segunda língua), do Mexicano, do Argelino, do Alemão, do Paquistanês… e por aí vai.

O problema inerente a toda massificação de um produto ou um serviço não está na massificação, per se. O problema se destaca quando o uso indiscriminado das “unwashed masses” acaba destruindo o valor que é criado pelos “bons cidadãos”. Se as pessoas que abusassem do sistema pudessem ser ignoradas (como hoje 99,99% dos spammers são ignorados pelo usuário comum do sistema de e-mail), não haveria problemas para os “antigos”. Entretanto, quando o bom cidadão se vê entre a opção de a) tentar educar os ignorantes, b) revidar e lutar pela ordem que antes existia no espaço ou c) fazer a sua malinha e cair fora, é óbvio que o caminho tomado será o do “os incomodados que se retirem”.

E eles se retiram. E procuram um novo lugar para chamar de seu. E o novo lugar chama atenção porque (de novo) tem gente de valor. E as massas correm atrás “desse novo lugar que tá virando uma nova febre”. E todo o jogo recomeça. “É o círculo da vida”, apresentado pelo Cid Moreira, veja mais nesse domingo, no Fantástico.

Um outro problema colateral de todo esse movimento é causado pelos discípulos de Gérson, que enxergam uma vantagem burra e participam ativamente desse movimento de deterioração de um serviço de qualidade. Na tentativa de ganhar dinheiro fácil (”AdSense! Monetização! Clickthrough! SEO!”), sempre tem uma meia dúzia de tontos que entram num jogo de popularidade para tentar faturar algo que não passa de, salvo raras exceções, meros trocados. Pessoas gastam horas e horas na frente do computador em troca de dinheiro de pinga, e nem percebem que estão sendo usadas num processo que faz uma transferência inútil de riquezas de ponto-da-moda-A para ponto-da-moda-B.

Ficar falando em “técnicas para maximizar os cliques no AdSense” ou em “como invadir o Digg direito” é o equivalente da blogosfera de garotinhas de escola que disputam quem vai ficar com o playboy da turma: não é difícil (pra quem se dispõe a sujeitar a se abaixar e mostrar os peitinhos, se tornando a vagabunda fácil), não é algo único e exclusivo (ou você acha que o pessoal do Digg vai manter o seu link online por mais do que poucas horas?) e dois dias depois que você fizer, você vai estar arrependido e com a reputação queimada diante dos seus pares. Andy Warhol falava que todos teriam seus 15 minutos de fama, mas pouco foi dito foi sobre o que vinha depois da festinha.

Como diria o Goyaba:

Não entendi isso de alguns blogueiros ficarem putinhos com a campanha do “Estadão” que compara a nossa, ahn, “espécie” a macacos. Sou macaco velho, com quase seis anos de blogagem, e acho que eles estão certos. Por que não estariam? Blogue é - essencialmente e em diferentes graus de elaboração - punhetagem, descrição de atividades como “hoje comi banana” e, às vezes, jogar cocô nos visitantes, o que é sempre divertido. (…)

“Ah, mas não é bem assim! Tem muita gente séria vivendo de blog!”. Tem. Ô se tem. Antes que o leitor se sinta atingido e pretenda disparar na caixa de comentário alguma lista de “pessoas influentes que ganham dinheiro com negócios na Internet”, pergunte-se: o que veio antes para eles? O público ou a “monetização”? Antes de pensar em AdSense ou propaganda, eles se preocuparam em oferecer um produto de qualidade para os seus consumidores.

Só depois que eles se tornaram uma referência em algum assunto específico (empresas de internet, design gráfico, jornalismo independente, fofocas sobre celebridades) veio o momento de poder capitalizar (merecidamente) o material que foi produzido. E “capitalizar” (termo muito melhor do que “monetização”) é algo que não se traduz diretamente por “banner de propaganda”. Capitalizar o material do blog pode ser feito com outras coisas: escrever um livro para um público cativo de seus textos, construir branding de empresas através do seu blog, tornar-se garoto-propaganda da sua empresa e inspiração para profissionais do ramo.

O difícil disso tudo é que tornar-se uma referência em algum assunto não é algo que acontece do dia para a noite. O moleque que só quer ganhar uns trocados (Pô, a grana é pra eu poder ir na balada) acha que sua atitude é inofensiva e não acha que está causando algum mal. Está, sim.

Quem age assim mata a galinha que ainda bota os ovos. Está causando mal a si próprio, perdendo tempo precioso que ele poderia usar trabalhando em algo mais interessante e aprendendo coisas realmente úteis. Está causando mal aos outros, aos “bons cidadãos”, ao praticar algo que pode trazer benefício no curto prazo às custas de um trabalho de longo prazo. Não acredita em mim? Veja por aí se não tem moleque fazendo troca-troca no AdSense? “Clica no meu que eu clico no seu”. Qual é o benefício disso? Dois moleques ganham dinheiro de pinga, e o Google reage mudando o sistema de cobrança. Pior ainda: os anunciantes do AdSense perdem a credibilidade no sistema e deixam de anunciar, prejudicando todos no processo.

Quando o Miguel começou a me pentelhar para escrever aqui, eu fiquei reticente: não iria escrever tanto sobre técnicas e dicas de tecnologia, e ele já faz isso com muita competência, então onde eu estaria adicionando alguma coisa útil a ser dita? Levei tempo para achar um caminho, até ter uma resposta mais ou menos satisfatória: vou escrever com uma idéia tão única quanto arrogante: eu quero escrever para redefinir a visão do trabalho do computeiro, engenheiro de software ou qualquer título que vá no seu hollerith. Aqui, meu trabalho vai ser redefinir o seu trabalho, aí.

Queremos aumentar o público? Claro que queremos. Queremos saber que tem gente que lê o que escrevemos? Claro que sim, ou nem me incomodaria de escrever num blog e teria um “querido diário”. Mas qualquer um que preza o seu trabalho jamais vai pautar o seu blog em cima de popularidade. Qualidade acima de quantidade. Isso é válido para qualquer coisa que fazemos com gosto e queremos sucesso: desenvolvimento de software, design, arte, literatura, namoros… até para a nossa audiência.

A Economia Digital

Para todos os meus quatro leitores que sentiram a minha falta, peço desculpas. Eu tenho uma série de textos que precisam sair da minha pilha, mas estou constantemente esbarrando num problema: como explicar um conceito novo do qual quero tratar sem apresentar os princípios que estão por trás de tudo?

A resposta para essa perguntinha se mostrou mais difícil do que ensinar a minha tia-avó a instalar o Linux na máquina de costura dela.

Em suma, eu jamais conseguiria fechar um texto sem falar antes de algo que, se bem utilizado, pode te fazer ver coisas rotineiras de uma forma radicalmente diferente. E não estou falando de lentes de contato.

É a economia, estúpido!

Os desenvolvimentos em computação e sobretudo em telecomunicações estão servindo para algo muito maior que uma mera corrida para ver quem tem o computador mais rápido ou um celular 3,14156G. A tecnologia atual está, com efeito, levando a alterações na forma que as pessoas trabalham, consomem bens e serviços, se comunicam, se relacionam profissionalmente e até mesmo afetivamente.

Qualquer um que não dormia durante as aulas de História vai perceber que a última frase é válida para qualquer época da humanidade, e especialmente verdadeira depois do surgimento do Capitalismo. Com um pouco de cuidado, você vai lembrar que o avanço das técnicas de agricultura promoveram o processo de urbanização, ou que o avanço das  técnicas de construção de navios permitiram o desenvolvimento do comércio com regiões distantes (e assim a obtenção de mais riquezas, como especiarias). Vai lembrar também da revolução industrial, causada pelo desenvolvimento do motor a vapor, e a possibilidade de novas riquezas serem criadas a partir de máquinas.

Existe uma coisa, entretanto, que é muito peculiar a essa revolução, e já vou falar dela. Mas antes, perceba que as mudanças anteriores alteraram o cenário econômico de forma significativa, mas uma coisa permanecia igual: o controle dos meios de produção.

No Capitalismo Comercial (versão beta), importava mesmo quem era capaz de fazer com que a mercadoria saísse do ponto A e chegasse no ponto B - bônus para quem escapasse de piratas e saques bárbaros no trajeto.

No Capitalismo Industrial (versão 1.0), quem ditava a norma era aquele que era capaz de produzir mais, ou seja, quem tivesse mais crianças de 8 anos de idade trabalhando 14 horas por dia trabalhando em suas fábricas.

No Capitalismo Financeiro (versão 2.0), o manda-chuva era quem conseguia dispor da grana necessária para investir na produção dos outros. Ou seja, quem dita o rumo da produção não é o dono da fábrica, mas os acionistas da empresa - fábricas existiam aos montes, e qualquer um podia produzir a um custo pequeno. Foi aqui que inventaram o conceito de outsourcing: agora, eram as crianças de 8 anos de idade de Taiwan e da Malásia que trabalhavam 14 horas por dia.

Você sabe o que dizem a respeito de sistemas de software. Só na versão 3.0 é que as falhas no design original são corrigidas. Isso acontece porque leva tempo para coletar os erros que acontecem em campo e ainda mais tempo para resolver os bugs.

Sistemas econômicos são bem parecidos. Na verdade, são até piores. Sistemas econômicos não possuem um engenheiro trabalhando na especificação, e todos os engraçadinhos (gente como Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Hitler e Fidel Castro) que se aventuraram a propor um re-design acabaram matando alguns milhões de pobres coitados.

Vamos olhar pelo lado de possibilidades abertas a cada nova versão do capitalismo?

Na versão Beta, você só poderia trabalhar na terra, e ainda tinha que ter a autorização do nobre e dar uma parte da sua produção para ele. Seu trabalho pouco valia, pouco era eficaz, e se traduzia em pouca qualidade de vida para você. Pior que isso, só se me obrigassem a assistir um jogo de golfe, comentado pelo Galvão Bueno.

Na versão industrial, tinha que trabalhar na fábrica e usar o seu salário para sobreviver e trocar por outros bens que você gostaria. Se você fosse mais ou menos capacitado, sua especialização já te renderia um salário um pouco melhor, e você já seria capaz de comprar um pouco de conforto.

Na versão financeira, se você quisesse se tornar um produtor de sapatos, você tinha que arrumar investidores dispostos a bancar a construção de uma fábrica. Construir a fábrica, arrumar gente disposta a trabalhar em troca de um salário que mantivesse o seu produto
competitivo, ou seja, baixo (ou ser uma Nike da vida e usar trabalho infantil) e ainda assim você corria o risco do seu negócio fracassar e ficar apenas com um estoque de sapatos encalhados para contar história.

Escrevi muito pra poder apresentar para vocês a feature mais importante do Capitalismo versão 3.0 - Codinome Economia Digital: você é quem tem o controle do meio de produção de riquezas.

E posso garantir que você está usando-o, nesse exato instante. O seu computador é o maior meio de produção de riquezas, inconteste.

Riqueza, no sentido econômico da coisa, não é algo que pode te dar muito dinheiro, mas é qualquer coisa que tenha um valor, seja de troca ou de utilidade.

A conexão com a internet, cada vez mais rápida e cada vez mais barata, também te ajuda a multiplicar essa riqueza produzida. Usando software livre, você pode criar muita coisa. Pode escrever e distribuir um livro, se quiser. É riqueza, mesmo que você não cobre nada pela sua distribuição. Pode oferecer um serviço através da internet, através do qual as pessoas trocarão por dinheiro, ou até mesmo por outros serviços.

O ponto-chave para entender as mudanças causadas pelo avanço da tecnologia está na eliminação substancial do controle dos meios de produção.

O que isso significa? Significa que agora você:

- Não precisa do investidor para fazer o seu negócio. Seu negócio não é mais uma fábrica. Tudo que você precisa é de um computador e uma conexão com a internet. Ainda que isso não seja algo grátis, é algo de custo ínfimo e cada vez menor.

- Não precisa ficar buscando operários para trabalhar para você. O produto que você pensa em fazer depende apenas da sua capacidade de produção, e pode ser duplicado também a um custo muito baixo, tendendo a zero.

- Não vai reclamar que não é valorizado profissionalmente. Não há relação empregado-patrão, ou mestre-escravo. Na economia digital, todos podem ser medidos de acordo com o valor que os consumidores do produto julgam adequado. Isso é muito melhor que uma sociedade onde a contribuição de cada indivíduo é difícil de ser medida, o que acaba se traduzindo num nivelamento por baixo da recompensa pelo trabalho produzido.

- Não será castigado nem jogado ao inferno, se seu empreendimento fracassar. Falhar tem um custo mínimo. A única coisa que você vai perder, caso fracasse, é tempo.

Ufa! Desentalei esse texto. Não é um tratado em Economia, mas serve para fundamentar um pouco as idéias malucas que correrão nesse blog. Em breve, voltarei com a programação regular de textos mais diretos, com as piadas desconexas de sempre.