Archive for the 'Negocios' Category

JS, e a batalha pelo controle da tecnologia web

Há algum tempo atrás, eu escrevi aqui sobre a nova especificação do Javascript, oficialmente conhecida como ECMAScript 4.0. Esta versão pretendia modernizar a linguagem, que estava congelada desde 1999 na versão 3.0 (também conhecida como Javascript 1.5). Na semana passada, esta versão foi oficialmente abandonada: o motivo foi uma longa batalha, que colocou em campos opostos alguns grandes players da internet mundial.

Entre as empresas que apoiavam a versão 4.0, estavam Google, Mozilla (que inclusive criou o projeto Tamarin, cujo objetivo foi criar uma implementação de um engine JS 100% compatível com esta nova especificação), e Adobe. Esta última tinha um interesse especial nesta nova especificação, já que internamente, seus engenheiros chamavam a nova versão de ActionScript 3.0.

ActionScript é, como todos sabem, a linguagem utilizada para desenvolver programas em Flash, tecnologia amplamente adotada na Internet. A Adobe tinha como planos fazer com que a nova especificação de Javascript fosse compatível com a sua própria linguagem de script. Conseguiria assim dois feitos: primeiro, rebateria as críticas daqueles que a acusavam de querer tornar a web um mundo proprietário. Segundo (e talvez o feito mais importante), unificaria as duas mais populares tecnologias  das duas tecnologias da Internet moderna: Flash e a linguagem que se tornou o pilar básico do AJAX e por consequência da tão falada Web 2.0.

Do outro lado desta batalha, estava nada menos do que a poderosa Microsoft, que luta para se firmar como uma empresa com um real poder de fogo e de influência sobre a grande rede mundial. Oficialmente, o argumento é de que a nova especificação representa uma evolução muito radical em relação à versão anterior, e que o melhor seria focar em desenvolver uma versão 3.1 inicialmente, e depois trabalhar em uma versão mais modesta da especificação 4.0. Devo dizer que concordo com a opinião de que a nova especificação era muito complexa, introduzindo uma quantidade bastante grande de conceitos e palavras chaves.

Mas a realidade é que a Microsoft, representada por Allen Wirfs-Brock, não quer ver uma outra empresa impor sua tecnologia como standard da Internet. E por enquanto conseguiu, como mostra o este trecho do comunicado oficial de Breidan Eich, membro do comitê executivo para definição da ECMAScript:

1. Focus work on ES3.1 with full collaboration of all parties, and target two interoperable implementations by early next year.
2. Collaborate on the next step beyond ES3.1, which will include syntactic extensions but which will be more modest than ES4 in both semantic and syntactic innovation.
3. Some ES4 proposals have been deemed unsound for the Web, and are off the table for good: packages, namespaces and early binding. This conclusion is key to Harmony.
4. Other goals and ideas from ES4 are being rephrased to keep consensus in the committee; these include a notion of classes based on existing ES3 concepts combined with proposed ES3.1 extensions.

It’s the people, stupid

Agora que eu estou morando bem longe do eixo São Paulo-Campinas, acho que posso ficar mais à vontade para ser um pouco mais incisivo nos meus comentários. Mesmo que as besteiras que eu fale aqui acabem sendo muito in your face e irritem demais algum dos meus 4 leitores a ponto de deixá-los com vontade de partir pra porrada, me sinto mais seguro.

Por quê? Primeiro, as 9 horas de vôo vão fazer com que o sujeito esfrie um pouco a cabeça. Segundo, ao chegar aqui o sujeito provavelmente vai querer aproveitar pra passar numa loja de eletrônicos e comprar um iPhone 3G baratinho, baratinho. Terceiro e mais importante: nerd bravinho e partindo pra briga é a coisa mais ridícula do mundo, and I can take you all.

Mas vamos deixar de papo-furado e partir pra primeira de uma série de agressões verbais não-solicitadas: a culpa é sua se o Brasil é um lugar tão difícil para fazer novos negócios, imbecil.

É isso que eu estava pensando quando eu vi o post no Pythonologia, sobre a falta de inovação na web do Brasil. Não, a culpa não é do Osvaldo, longe disso. É sua mesmo, leitor, que está sentado no seu cubículo, reclamando da falta de oportunidades e do tanto que a empresa faz você trabalhar para garantir o seu salário “suado” do mês.

Armchair entrepreneur, é isso que você é. Bundão.

Sim, o governo é irresponsável e gasta erradamente as toneladas de recursos que arrecada através dos impostos. Sim, há muita burocracia. Sim, há pouco incentivo para querer trabalhar duro em um negócio próprio num país em que impera a Lei de Gérson. Sim, os custos de infra-estrutura no Brasil são absurdos. Sim, o ensino (básico e superior) no Brasil é uma lástima.

Mas vou te contar uma coisinha: nada disso importa mais, para quem não tem medo de arregaçar as mangas e mostrar sua capacidade para trabalhar e produzir riquezas. Pior de tudo; não é a primeira vez que eu digo isso.

Todas os problemas citados pelo Osvaldo existem realmente, mas podem muito bem ser evitados ou postergados. Na “web 2.0″, podemos deixar a papelada de abertura da empresa pra depois que você tiver um fluxo de caixa significativo. Podemos contratar um datacenter no exterior (é o que nós fizemos)  e fugir dos planos ridículos aqui oferecidos.

Dependendo da idade e da situação da pessoa que quer trabalhar em um projeto novo, podemos até reduzir nosso custo de vida para não precisar tirar dinheiro do próprio bolso durante a fase embrionária do projeto. Bastaria chegar para seus pais e falar: “Pai, Mãe, posso pegar o meu quarto de volta e morar com vocês enquanto o projeto que estou desenvolvendo não gera renda?”. Na verdade, já que fazemos parte da geração-canguru, há uma boa chance que você já esteja morando com os velhos mesmo, não é?

Sabe qual é a única coisa que não podemos contornar, o único recurso que nos falta? Pessoas dispostas a correr riscos. Pessoas que entendem que perder algumas batalhas é do jogo. Pessoas que fazem os sacrifícios necessários para alcançar um objetivo maior.

E como você não é esse tipo de pessoa que faz tanta falta no Brasil, podemos concluir que você é parte do problema e não da solução, malandro.

Ah, nem pense em dar a desculpa do “eu tenho família e filhos para sustentar, não posso correr riscos”. Toda pessoa que trabalha com investimento sabe que a exposição ao risco é algo calculado. Nem pense em dar essa desculpa patética, enquanto você fica medindo com seus amigos o quanto de retorno você está tendo na sua carteira de ações.

Mesmo quem não pode largar o seu emprego e montar a sua própria empresa pode assumir uma postura que promova o empreendedorismo e a inovação. Você não precisa largar o seu emprego para financiar um projeto Open Source, ou para se tornar um Angel Investor. Ou para juntar-se com um grupo de outros colegas da sua empresa e investir dinheiro em pessoas mais novas que tenham projetos ousados. Risco e recompensa são sempre proporcionais; você pode pensar em diminuir um pouco a sua quantidade de papéis da Petrobrás (que não precisa do seu dinheiro, anyway) e passe a investir em algo muito mais arriscado: startups. Quem sabe você não está diante do próximo Google?

Não quer colocar dinheiro? Torne-se mentor de um garoto na faculdade onde você estudou. Compartilhe com ele a sua experiência, a sua visão do mercado, a sua opinião a respeito das mudanças na sociedade que a tecnologia traz, etc. Em um mundo onde o custo operacional é nulo, essa ação pode ser ainda mais valiosa do que hard cash.

Pra encerrar, deixo as palavras do grande filósofo Ben Parker: “com grande poder, vem grande responsabilidade”. Qualquer pessoa que tenha conhecimento e técnica em mãos tem grande poder. Esse é o nosso caso. Cabe a nós, agora, saber usar esse poder de forma correta e responsável.

Vamos dar uma espiadinha?

A frase do título foi imortalizada por Pedro Bial no horroroso Big Brother Brasil (que, confesso, assisti assiduamente nos primeiros anos).

Fato é que o ser humano é curioso, voyeur por natureza. O ser computeiro mais ainda. E a dúvida que bate na cabeça de muitos de nós é “Quanto ganha um engenheiro de SW numa empresa top como Google, Apple ou Microsoft?”

Bem, o site GlassDoor.com tem como proposta amenizar esta dúvida cruel, trazendo informações de funcionários anônimos das próprias empresas como salários por posição, opiniões sobre CEOs e nível de satisfação. Fico só imaginando o funcionário chegando no site, com sua voz de pato e a cara quadriculada… :-)

Ja é possível dar uma espiadinha em empresas como Google, M$ e Yahoo.

Impressões da Discovery ‘08 - Parte 2

Um tempo atrás eu descrevi minhas impressões sobre a Discovery’08 e prometi continuar sobre mais uma palestra e o painel que assisti. Demorou um pouco mais do que esperado, mas felizmente eu consegui achar onde tinha deixado minhas anotações e lembrar dos pontos que queria comentar. Mas melhor do que isso, eu descobri que os organizadores fizeram podcasts de algumas palestras e discussões e colocaram à disposição no site. Então, quem quiser pegar o conteúdo na integra é só baixar os podcasts (estão em inglês).

Primeiro vamos à palestra do ministro da pesquisa e inovação de Ontario, Honorable John Wilkinson. Ele falou durante o almoço, o que não é muito agradável, mas a minha primeira impressão foi: como os políticos sabem falar bem! Não que os outros palestrantes não soubessem falar ou tivessem problemas no palco, mas o políticos são especialistas em falar as coisas de um jeito que parece até que eles realmente estão entendendo detalhes de todos os assuntos, mesmo que seja somente um texto escrito pelo assessor.

Mas falando do conteúdo, duas coisas me chamaram muito a atenção. Primeiro foi que o evento contava com enviados das embaixadas da China e da Índia. Nisso eu fiquei pensando: onde estaria o representante brasileiro? O governo brasileiro envia representantes para eventos os mais esdrúxulos possíveis, mas será que ninguém da embaixada em Ottawa ou do consulado em Toronto sabia desse evento e/ou se interessou por ele? Qual seria o motivo da missão brasileira no Canadá, somente dar suporte à cidadãos brasileiros, ou participar mais ativamente em parcerias que podem trazer benefícios enormes para o país? O Canadá não tem uma economia comparável, em tamanho, à dos EUA ou da Europa, mas é não é de se desprezar, como nossos concorrentes chineses e indianos sabem muito bem. Segundo o ministro, Ontario é o distrito do G8 (e possivelmente do mundo) com maior densidade de graduados em universidades (distritos seriam estados ou províncias, já que provavelmente existem focos menores com maior densidade). Isso significa um grande potencial de crescimento na região, já que conta com muita mão de obra qualificada (e um governo que, apesar de todos os problemas, tenta ajudar).

O segundo ponto interessante tem relação com os incentivos do governo provincial para a criação de novos negócios. Existem inúmeros projetos, mas dois chamam a atenção. Primeiro, o governo tem um projeto com um fundo de alguns bilhões de dólares pra investir em empresas de tecnologia. O interessante é que, se você tem um projeto e aplica para conseguir fundos, o governo garante que responde em 45 dias. Isso é realmente impressionante, pois avaliar um projeto desses sempre requer contatos com especialistas e outras milhões de burocracias atrapalhando. Segundo o ministro, o governo quer ser um “parceiro” que anda na “velocidade da nova economia”. Segundo, novas empresas que são baseadas em tecnologia própria tem 10 anos de isenção fiscal. Isso é o governo trabalhando pra ajudar as empresas, não pra chupar o sangue delas! Na minha última ida ao Brasil eu conversei com um amigo que abriu uma empresa de tecnologia. Ele me disse que cerca de 40% dos gastos da empresa eram impostos, desde taxas diretas da venda até encargos para os empregados. Se o governo cortasse esses impostos para empresas recém criadas, ele teria 40% mais investimento pra crescer! E depois o governo poderia reter 20% de impostos de um bolo muito maior. É claro que tem-se que tomar muito cuidado com essas medidas, senão vão surgir milhares de empresas se recriando a cada dois anos pra ficar sempre na categoria de “novas empresas”, mas eu imagino que algo bem pensado nessa direção seja muito proveitoso.

Bem, vamos ao painel então. O título era “Failures on the Road to Success” (literalmente, fracassos no caminho do sucesso). A proposta era basicamente discutir como fracassos fazem parte da busca por sucesso, principalmente em áreas muito imprevisíveis (veja no último texto sobre os Black Swans). Os palestrantes não entraram muito em conflito e todos eles defendiam a tese de que fracassos anteriores são considerados positivamente no vale do silício por analistas de investimento. Isto é, quando alguém vai analisar se vai pôr dinheiro na sua idéia, você ter feito uma besteira anterior é positivo, pois você ganhou experiência, talvez perdeu dinheiro (dos outros), mas tem mais chance de dar certo agora. Infelizmente, e isso eu achei o ponto fraco da discussão, nenhum dos palestrantes admitiu realmente ter fracassado feio. Somente um deles contou um caso em que o fracasso inicial no fim se transformou num sucesso (ele apostou na moeda errada, mas depois de alguns anos ela se tornou a certa). Ou seja, não sei até que ponto é só glamour essa idéia de glorificar o fracasso passado.

Mas outras duas mensagens curtas do painel também foram legais. Primeiro, eles pisaram e falaram mal de venture capitalists. Disseram que eles não estão nem aí para o seu negócio, tudo que querem é retorno do investimento, etc, tudo aquilo que a gente já sabe, mas é sempre bom repetir: no melhor dos mundos, cresça o quanto der, até sua empresa ter o máximo possível de valor de mercado antes de procurar investidores. Segundo, eles disseram nua e cruamente: cientistas da computação não sabem fazer negócios. Isso não significa que não existam computeiros que possam ser ótimos homens de negócios, mas simplesmente que o tipo de treinamento e skills necessários pra ser um bom manager, para negociar com clientes, etc, não é exatamente o que é ensinado em um curso de computação. A dica é, se você entende muito de tecnologia e sabe muito bem como desenvolver produtos, se concentre nessa área e se associe com uma pessoa que é especialista em vender a sua tecnologia e o seus produtos. Mais uma que a gente já sabia!

Google Doctype. Don’t Be Evil. Be Geniously Diabolical.

Ok. Tem coisas que a gente tem que tirar o chapéu: o Google lançou um site que contém material de referência para todas as tecnologias usadas por desenvolvedores web. Tudo que você pode vir a precisar saber sobre (X)HTML, CSS e Javascript foi juntado no Google Doctype, lavado, passado, engomado e posto em uma bela forma de apresentação e navegação. Não basta isso, eles liberaram o próprio código de Javascript que eles usam para sites como Gmail e Google Maps. Pouca coisa, né?

Mas, por favor, não seja um geek-cheerleader da empresa que aparenta ser boa-moça. Você vai ver por aí um monte de gente falando sobre o quanto eles são legais, dão coisas de graça, entregam presentes no Natal… Não caia nessa. Uma jogada assim não é altruísta. É estratégia.

Empresas inteligentes comoditizam produtos complementares aos seus.

Há um artigo de Joel Spolsky que ele mostra brilhantemente o porquê do interesse das grandes empresas pelo Open Source. Não é por benevolência ou por caridade. É estratégia, pura e simples. Consiste em fazer com que você torne produtos complementares ao seu em commodities, para que o custo de aquisição dele seja baixo, o menor possível. Quando o custo de um produto complementar ao seu é baixo, você está indiretamente tornando mais fácil a aquisição do seu produto principal.

É uma explicação para termos empresas que colocam pesadas somas em investimento em software aberto. Tomando um exemplo do artigo: a IBM é - atualmente - uma empresa que vende serviços de consultoria e desenvolvimento em TI, certo? Se você quiser contratar alguém para desenvolver uma aplicação para você, você vai ter que custear parte da infraestrutura: pessoal, máquinas, servidores, licenças de software/pacotes de desenvolvimento… tudo que seria necessário para que o produto se torne uma realidade.

Pergunta: se um cliente potencial tem um orçamento X para esse contrato, e que você sabe que esse valor terá que ser dividido entre pessoal, máquinas, servidores, IDE’s e estoque de café Pilão para os programadores, não seria melhor que o grosso desse dinheiro fosse gasto onde você tenha a maior margem de lucro possível?

Acontece que pó de café, máquinas e servidores já são commodities. Um cliente pode trocar de fornecedor sem ter grande prejuízo. Não há muito que pode ser feito aqui.

Também podemos comoditizar pessoal, sabia? Muitas das empresas de consultoria estão apenas buscando profissionais certificados justamente para que possam pensar nos desenvolvedores como peças intercambiáveis. Ao oferecer e buscar pessoas que possuam cursos e certificações, elas estão comoditizando o mercado de profissionais.

O que restaria? Diminuir o custo de aquisição de licenças de software. Ao investir em soluções Open Source, uma empresa que presta serviços de consultoria está comoditizando um produto complementar. Dessa forma, seus clientes passam a alocar mais de seus recursos naquilo que lhes interessa. Genial, não é mesmo?

Voltando ao Google…

Tudo que o pessoal do Google deseja é dominar a web como plataforma de desenvolvimento. Para isso, o que eles precisam é de mindshare. Quanto mais gente desenvolvido aplicações para web, mais o Google fica próximo do seu sonho do Cloud Computing. Quanto mais desenvolvedores trabalhando com web, mais barato fica o custo de desenvolvimento de aplicações web. Quanto mais baratos os serviços oferecidos pela web, mais o Google pode obter de faturamento em produtos como o AdWords e AdSense.

Uma empresa como a Google oferecer de graça informação que facilita o desenvolvimento de aplicações web é a mesma coisa que uma empresa como a IBM investir no Linux e oferecer ferramentas gratuitas como o Eclipse.

Estilo Microsoft de ser…

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Uma palavra apenas: ridículo….

Receitas de sucesso.

Se você perguntar qual é a melhor fórmula de sucesso a um produtor de cinema, ele certamente vai te falar sobre como arrumar os nomes dos atores, sobre quanto custa para ter um nome de peso na direção, sobre a importância de uma equipe de pré e pós-produção, do quanto vai te custar para ter uma equipe de ponta de efeitos especiais, de todos os mecanismos que devem ser evitados para evitar rejeição do público (linguagem inapropriada, temas controversos) e de elementos que podem e devem ser utlizados (você pode colocar a Jéssica Alba numa roupinha apertada e dizer que é “uniforme de super-herói”: vai agradar as crianças e aos adultos) para garantir a atenção do público.

Enquanto ele se finge de ocupado e vai em direção ao seu carro conversível, o executivo vai te contar que um bom filme, hoje em dia, não sai por menos de 100 milhões de dólares e fatura, quando muito, de 2 a 5 vezes esse valor. Nada mal, não é mesmo?

Pois bem. Ontem eu consegui fugir da frente do computador e me enfiei na frente de outra tela, desta vez para assistir Juno. Uma história simples, com personagens que resgatam meus fiapos de esperança na humanidade. Não foi nenhuma surpresa que o filme tenha recebido o Oscar de melhor roteiro, escrito pela talentosa Diablo Cody. O que realmente surpreendeu é que o filme foi feito com um orçamento de apenas US$ 2,5 milhões, e já tenha faturado mais de US$ 130 milhões. Um retorno de 5500% sobre o investimento. É o tipo de coisa que deve fazer com que o executivo ponha em xeque a sua própria fórmula de sucesso: “por que é que eu não consigo fazer algo tão bem sucedido?”

A resposta é simples: em qualquer área de negócio, compram-se todos os especialistas da indústria, mas não se compra talento. Não há como botar preço num roteiro como o que foi escrito por Diablo Cody.

Encontre e desenvolva seu talento. Expertise é secundária.

Coisas que você deveria saber a respeito da sua empresa

Este post não é especificamente relacionado à computação, mas acho que todo bom computeiro que trabalhe em uma corporação (seja ela pequena ou grande) deveria ter noção das coisas citadas no livro “Corporate Confidential — 50 Secrets Your Company Doesn’t Want You To Know and What To Do About Them” (Editora St. Martin’s Griffin) da autora Cynthia Shapiro.

Não li o livro, mas o resumo apresentado aqui e aqui pela revista Você S/A já são interessantes o suficiente para atiçar minha curiosidade de ler a descrição mais completa apresentada no livro.

Já me vi em várias das situações descritas e tendi a concordar com os pontos apresentados na maior parte delas. Vale a pena dar uma olhada!

Não tente ser o melhor

Outro dia me deparei com este artigo de James Whitaker - CEO da DubCorp, uma empresa especializada em desenvolver negócios em nichos de mercado de pequeno e médio porte. O artigo me chamou a atenção, por trazer uma mensagem bastante incomum: “Não ser o melhor“.

Em um mundo competitivo como o nosso, onde o sucesso é medido pelo que se ganha e o que se tem, todos querem ser o melhor em alguma coisa, e obter sucesso a partir disto. Não é o caso de J. Whitaker. Se você já leu o artigo que citei, você pode ver que ele nunca foi o melhor em nada na vida, nunca obteve o primeiro lugar em nenhuma competição que participou … mas sempre esteve entre os 10% melhores em quase tudo o que fez. Muitas pessoas devem ter tido experiências semelhantes, e algumas devem ter se frustrado com essa vida de “quase” chegar no topo … no entanto, J. Whitaker conseguiu enxergar isto de forma positiva, e aplicar isto à sua vida profissional.

Conforme o autor, “superar o cara mediano é fácil, superar o cara que é melhor que eu é que é quase impossível”. A partir disto, ele decidiu não gastar energias em ser o melhor em um negócio, e sim ser melhor que a média em vários negócios. Certamente, ter um negócio de US$ 1 milhão por ano não é grande coisa, mas ter 50 negócios de US$ 1 milhão por ano, já é um negócio de US$ 50 milhões por ano. E é esta idéia que guia a DubCorp - “DubCorp será o negócio mais mediano do mundo … mas fará isso melhor que qualquer um”.

Eles já criaram o GreekHoodies.com (um e-commerce que produz camisetas para fraternidades), a SoulGear.net ( um e-commerce que vende roupas para eventos esportivos), e outros negócios na mesma linha.

Este modelo de negócios tem uma certa afinidade com o da 37 Signals (Basecamp, Backpack, Campfire) - eles são uma pequena empresa, e gostam de ser assim. Eles acreditam que são melhores assim, pois permite que sejam mais ágeis. E eles têm sido extremamente bem sucedidos desta forma.

Assim, se você todo dia pensa em como criar o maior e melhor negócio do mundo, talvez seja o momento de refletir. Ser o maior e o melhor é difícil … ser bom e pequeno é mais fácil, e talvez seja o suficiente.

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Android Developer Challenge

Se uma empresa produz sistemas operacionais e deseja que a sua plataforma domine o mercado, ela tem duas opções:

  1. Colocar o seu CEO num palco de uma conferência, e pedir que ele fique gritando “developers, developers, developers” até perder a voz.
  2. Prover um ambiente de incentivo econômico para que desenvolvedores utilizem a sua plataforma, no lugar de outras alternativas.

Imagino que o pessoal da Google tenha respeito por suas cordas vocais, pois eles optaram pela segunda opção. Foi anunciado o Android Developer Challenge. A “competição” prevê prêmios para pessoas que desenvolvam novos aplicativos para a plataforma Android, totalizando até US$10 milhões.

Enquanto não há nenhum handset fabricado e pronto para o mercado, os prêmios serão pagos para as melhores propostas e idéias mais promissoras que possam fazer uso da tecnologia oferecida pelo Android. Até o começo de março de 2008, serão aceitas propostas de aplicativos. As 50 melhores propostas receberão um prêmio de US$ 25 mil. Depois disso, quando os celulares começarem a entrar no mercado e os aplicativos já puderem ser testados em campo, serão premiados os 20 melhores (entre os 50 qualificados), com prêmios de US$ 100 mil e US$ 275 mil.

A iniciativa é um reflexo dos tempos. Numa época em que aparelhos celulares são oferecidos de graça por operadoras de telefonia e que esses aparelhos são capazes de rodar sistemas operacionais livres, gratuitos e de qualidade, é difícil conseguir penetração em um mercado maduro. A alternativa, então, passa a ser fomentar desenvolvedores e criar um ecossistema de inovação na sua plataforma.

Alguém aí quer participar? Entre em contato.

Aviso aos empreendedores da Terra Brasilis

Um pouco em cima da hora, o Log4Dev anuncia que amanhã, dia 10 de novembro de 2008, ocorrerá em São Paulo o primeiro 1o StartupCamp Brazil Web. O objetivo do evento é fomentar o empreendorismo brasileiro, promovendo o encontro de VCs, angels, empreendedores, donos de startups, blogueiros e pessoas ligadas à web brasileira. De manhã, haverão palestras e a tarde, um encontro aberto para discutir o empreendedorismo no Brasil. Mais informações sobre o projeto StartupCamp Brazil podem ser encontradas no site deles.

Despersonalizando o conhecimento

Como trabalho em uma cidade diferente da que resido, pego uma van, com outros funcionários da empresa (além de alguns de empresas próximas), para chegarmos ao local de trabalho. Normalmente, viajo dormindo e babando, mas hoje, diferente dos outros dias, tivemos discussões interessantes a respeito de nosso ambiente de trabalho. Um dos problemas discutidos diz respeito à perda de pessoas para outras empresas do setor, e o impacto que isto tem sobre nossas atividades. Por sermos uma empresa focada em pesquisa e desenvolvimento, as baixas de funcionários normalmente resultam em perda de conhecimento, prejudicando imensamente o andamento de nossas atividades.

Dentro deste contexto, um de meus colegas citou a seguinte frase: “O maior ativo de nossa empresa são as pessoas“.

Está é uma frase de grande impacto, muitas vezes proferidas pelo RH das empresas, para mostrar a seus funcionários o quanto elas são importantes dentro da estrutura. Mas, refletindo um pouco, chego à conclusão de que esta frase está completamente errada. O maior ativo de uma empresa não são - e nem pode ser - as pessoas, mas sim o conhecimento que elas geram. O que leva as empresas a exaltarem o valor de seus funcionários é uma política que permite a personalização do conhecimento, em detrimento de seu compartilhamento. Desta forma, quando um funcionário deixa a corporação, leva consigo algo de extremo valor, que nenhum outro colaborador é capaz de reproduzir imediatamente, causando prejuízos diversos - atrasos em projetos, necessidade de reestruturação, entre outros.

Para contornar isto, as empresas são obrigadas a remunerar melhor as pessoas, de acordo com a quantidade de conhecimento que esta pessoa adquiriu e que ninguém mais conhece, para evitar prejuízos em suas operações. De certa forma, a empresa acaba ficando escrava do funcionário (apesar de num primeiro instante, isto soar ridículo). No entanto, isto pode ser evitado, desde que ataquemos o problema real, ou seja, evitar que o conhecimento se acumule sobre uma ou poucas pessoas. É claro que nem sempre isto é possível, mas vou tentar colocar aqui algumas alternativas para pelo menos minimizar este problema.

  1. Diminua a verticalização: muitas empresas se estruturam de forma a manter diversos níveis hierárquicos. Quanto maior a quantidade de níveis, mais difícil é divulgar o conhecimento, pois este tende a fluir melhor entre pessoas de um mesmo nível hierárquico. O problema maior se encontra na transmissão do conhecimento de cima para baixo - é muito comum que os chefes omitam informações de seus subordinados, muitas vezes por não acharem útil a eles, e em alguns casos, para manter seu status quo
  2. Evite a formação de especialistas: mesmo em uma equipe formada por pessoas no mesmo nível hierárquico, é comum que cada uma delas tenha responsabilidades específicas (na área de desenvolvimento de softwares, existir uma equipe com DBA, analista, programador, testador), ou trabalhem em projetos específicos. O ideal é criar uma estrutura onde todos sejam capazes de realizar qualquer tipo de tarefa (mesmo que tenha maior responsabilidade sobre um tipo específico), e no caso de equipes muito pequenas trabalhando em cada projeto, que estas se alternem periodicamente entre os diferentes projetos, de preferência escalonando os membros da equipe
  3. Crie estruturas para armazenar e divulgar o conhecimento: a utilização de sistemas informáticos para documentar e divulgar o que os colaboradores estão fazendo, processos da empresa, guias de operações, entre outros é fundamental para espalhar o conhecimento dentro da organização. Várias ferramentas (inclusive open-source) podem ser utilizadas para este fim, como wiki’s e blogs. Além disto, a divulgação dos trabalhos através de seminários e palestras periódicos, que estimulem também a discussão, é útil não somente para espalhar o conhecimento, mas também para desenvolvê-lo, ao permitir que pessoas de diferentes áreas, com diferentes olhares possam analisar os problemas sobre outra perspectiva.
  4. Crie um ambiente social propício: isto talvez seja o mais difícil, mas é de fundamental importância. A criação de um ambiente colaborativo, que faça com que as pessoas queiram compartilhar conhecimento, depende do perfil dos colaboradores, e do clima da empresa. Animosidades e inimizades entre funcionários, assim como um ambiente profissional que valorize a competição e o individualismo, minarão qualquer tentativa de despersonalizar o conhecimento. Desta forma, preste atenção ao contratar, não somente nos aspectos técnicos, mas também nos aspectos de sociabilidade de seu candidato - para tanto, é sempre bom consultar a equipe que irá trabalhar com o candidato, caso este seja aprovado (já falei a respeito anteriormente). Além disso, valorize e premie os “compartilhadores”.

É claro que a implementação destas idéias não eliminam totalmente a dependência das empresas com relação a determinados funcionários. Haverá sempre aqueles funcionários extraordinários, extremamente eficientes e competentes, cuja saída representaria uma grande perda à empresa. No entanto, a criação de um ambiente colaborativo, onde o conhecimento é realmente da empresa, e não do funcionário, pode inclusive estimular a formação de colaboradores mais eficientes e competentes, uma vez que este não mais será insubstituível pela simples retenção de conhecimento.

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Ajudando a comprar a vara e o anzol

Um antigo dito diz: “Dê um peixe a alguém, e ele terá comida para um dia; ensine-o a pescar e ele terá comida para toda a vida”. Bom, isto é meia verdade, afinal de contas, de nada adianta saber pescar se você não tiver condições de comprar vara, anzol, linha …

Seguindo esta linha de raciocínio, um grupo de pessoas criou o Kiva - um site cujo objetivo é colocar pessoas interessadas em ajudar os menos favorecidos, em contato com proprietários de pequenos negócios de países em desenvolvimento, permitindo que os que assim desejarem, realizem pequenos empréstimos de pelo menos US$ 25,00, com duração de 6 a 12 meses a estes micro-empresários. Durante o período do empréstimo, o credor pode receber notícias sobre o andamento do negócio que recebeu o empréstimo. Uma vez pago o empréstimo, você pode recuperar o dinheiro, ou emprestá-lo para um outro empresário, mantendo assim o ciclo virtuoso.

Para dar confiabilidade a este sistema, o Kiva mantém parcerias com instituições de microcrédito, responsáveis por selecionar os negócios que se qualificam para receber os empréstimos. Estas instituições cadastram os negócios, e você pode então escolher para quem você vai emprestar seu dinheiro. Este sistema mantém o registro destas instituições de micro-crédito, permitindo consultar o grau de confiabilidade da instituição, o montante que ela conseguiu obter em empréstimos para as empresas que cadastrou, e a porcentagem de “calotes” dado pelas empresas cadastradas.

Há outras formas de ajudar, afinal de contas, manter uma estrutura dessas, de alcance mundial não é fácil. Dessa forma, aqueles que desejarem podem se voluntariar para ajudar a manter e desenvolver o Kiva, ou mesmo trabalhar lá. Existe ainda a possibilidade de se tornar um Kiva Fellow, e ter então a oportunidade de viajar e trabalhar diretamente com uma instituição de microcrédito, e ver com seus próprios olhos o impacto dos empréstimos.

Atualmente, só há empresários da África e da Ásia cadastrados para receber empréstimos. Esta situação deve mudar, uma vez que há várias instituições dos outros continentes que se associaram recentemente ao Kiva. É bom ressaltar, que esta idéia é apoiada por empresas como Google, Microsoft, Yahoo, Starbucks, além de instituições como Clinton Global Initiative e WK Kellog Foundation

Está é uma idéia muito boa, e mostra como a tecnologia que desenvolvemos pode ser empregada para mudar a vida dos menos favorecidos. Não fosse o poder agregador da Internet, nada disso seria possível, ao menos não nesta escala. Conheça este projeto, e se possível, ajude a fazer a vida de outros melhor.


Kiva - loans that change lives

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Quando esse pessoal vai aprender?

Eu lembro da época em que o orkut não tinha sido “dominado” por usuários do Brasil. A coisa era nova, mesmo com redes sociais já existentes e boa parte dos americanos usando o Friendster. Isso foi num remoto 2004.

Eu gostava do orkut porque me serviu para entrar em contato com outras pessoas, que não eram rock-stars da internet, mas mesmo assim com algo legal a dizer e - mais importante - coisas legais para mostrar. Essa era uma época que o Alan Cox participava do orkut (se você não sabe quem é: ele foi por muito tempo uma das maiores referências do desenvolvimento do kernel do linux, sendo o responsável pela versão 2.2) e escrevia nos fóruns, tinha mensagens sobre os eventos do qual participava, et cetera.

Era possível entrar em uma comunidade sobre, sei lá, arquitetura MIPS e ver que tinha gente que trabalha e vive de desenvolvimento em sistemas para essa arquitetura. Era possível buscar referências diretamente com os responsáveis por uma atividade. Por exemplo: você sabia que o MIPS é base dos SoC de boa parte das impressoras, scanners e set-top boxes de televisão?

E não era só isso: tinha gente com perfis simples, mas que apareciam e participavam de comunidades sobre Filosofia, Economia, Gastronomia, discussões sobre tipos de perfil psicológico usando o critério Meyer-Briggs, tudo, tudo, tudo. Até mesmo planilhas de treinos de natação eu obtive no orkut, conversando com um cara do Canadá que estava se preparando para competições do mesmo nível (café-com-leite, e cloro) que eu participava. Toda sorte de assuntos e de idéias era discutida por pessoas interessadas e interessantes. E o melhor: as pessoas participavam porque elas também aprendiam. Havia muita gente interessante para ser conhecida. A tal da “sabedoria das multidões” funcionava.

Mesmo que - para você - esse tipo de informação seja tão importante quanto saber a escalação completa do time de críquete da Lituânia nos jogos universitários mundiais de 1987, ficava inegável a afirmação que o valor de uma rede social está intrisicamente ligado ao valor dos melhores usuários.

Era uma sociedade composta por elementos de boa estirpe. Havia respeito mútuo. O conhecimento se difundia. Até que aconteceu o que costuma acontecer com coisas boas e acessíveis: o orkut caiu no gosto do povo brasileiro. Nem preciso contar a piada, na qual Deus precisava arrumar alguma coisa ruim para o Brasil para compensar uma região tão rica de recursos naturais e livre de catástrofes, para explicar o que significa o problema que foi essa invasão tupiniquim.

Tomados por uma vaidade adolescente, alguns começaram a criar comunidades do tipo “Vamos fazer do Brasil o país com mais gente no Orkut”. Adicionavam qualquer pessoa que conheciam, na esperança de fazer amigos. Ficaram num pissing contest, perdendo toda oportunidade de entrar em contato com pessoas que de esferas diferentes (geográficas, sociais, intelectuais), para transformar o site na versão virtual de um bairro de periferia. Invadiram comunidades onde a discussão era em inglês com tópicos num (mal-escrito) português, usando o banal argumento do “Brazil rlz. C tem brasileru aki, eu vo fala em portugueis”. Achavam que estavam dando uma banana para os americanos-porcos-imperialistas-que-queriam-impor-a-sua-língua-ao-resto-do-mundo, mas estavam na verdade atrapalhando a vida do indiano (que tem inglês como segunda língua), do Mexicano, do Argelino, do Alemão, do Paquistanês… e por aí vai.

O problema inerente a toda massificação de um produto ou um serviço não está na massificação, per se. O problema se destaca quando o uso indiscriminado das “unwashed masses” acaba destruindo o valor que é criado pelos “bons cidadãos”. Se as pessoas que abusassem do sistema pudessem ser ignoradas (como hoje 99,99% dos spammers são ignorados pelo usuário comum do sistema de e-mail), não haveria problemas para os “antigos”. Entretanto, quando o bom cidadão se vê entre a opção de a) tentar educar os ignorantes, b) revidar e lutar pela ordem que antes existia no espaço ou c) fazer a sua malinha e cair fora, é óbvio que o caminho tomado será o do “os incomodados que se retirem”.

E eles se retiram. E procuram um novo lugar para chamar de seu. E o novo lugar chama atenção porque (de novo) tem gente de valor. E as massas correm atrás “desse novo lugar que tá virando uma nova febre”. E todo o jogo recomeça. “É o círculo da vida”, apresentado pelo Cid Moreira, veja mais nesse domingo, no Fantástico.

Um outro problema colateral de todo esse movimento é causado pelos discípulos de Gérson, que enxergam uma vantagem burra e participam ativamente desse movimento de deterioração de um serviço de qualidade. Na tentativa de ganhar dinheiro fácil (”AdSense! Monetização! Clickthrough! SEO!”), sempre tem uma meia dúzia de tontos que entram num jogo de popularidade para tentar faturar algo que não passa de, salvo raras exceções, meros trocados. Pessoas gastam horas e horas na frente do computador em troca de dinheiro de pinga, e nem percebem que estão sendo usadas num processo que faz uma transferência inútil de riquezas de ponto-da-moda-A para ponto-da-moda-B.

Ficar falando em “técnicas para maximizar os cliques no AdSense” ou em “como invadir o Digg direito” é o equivalente da blogosfera de garotinhas de escola que disputam quem vai ficar com o playboy da turma: não é difícil (pra quem se dispõe a sujeitar a se abaixar e mostrar os peitinhos, se tornando a vagabunda fácil), não é algo único e exclusivo (ou você acha que o pessoal do Digg vai manter o seu link online por mais do que poucas horas?) e dois dias depois que você fizer, você vai estar arrependido e com a reputação queimada diante dos seus pares. Andy Warhol falava que todos teriam seus 15 minutos de fama, mas pouco foi dito foi sobre o que vinha depois da festinha.

Como diria o Goyaba:

Não entendi isso de alguns blogueiros ficarem putinhos com a campanha do “Estadão” que compara a nossa, ahn, “espécie” a macacos. Sou macaco velho, com quase seis anos de blogagem, e acho que eles estão certos. Por que não estariam? Blogue é - essencialmente e em diferentes graus de elaboração - punhetagem, descrição de atividades como “hoje comi banana” e, às vezes, jogar cocô nos visitantes, o que é sempre divertido. (…)

“Ah, mas não é bem assim! Tem muita gente séria vivendo de blog!”. Tem. Ô se tem. Antes que o leitor se sinta atingido e pretenda disparar na caixa de comentário alguma lista de “pessoas influentes que ganham dinheiro com negócios na Internet”, pergunte-se: o que veio antes para eles? O público ou a “monetização”? Antes de pensar em AdSense ou propaganda, eles se preocuparam em oferecer um produto de qualidade para os seus consumidores.

Só depois que eles se tornaram uma referência em algum assunto específico (empresas de internet, design gráfico, jornalismo independente, fofocas sobre celebridades) veio o momento de poder capitalizar (merecidamente) o material que foi produzido. E “capitalizar” (termo muito melhor do que “monetização”) é algo que não se traduz diretamente por “banner de propaganda”. Capitalizar o material do blog pode ser feito com outras coisas: escrever um livro para um público cativo de seus textos, construir branding de empresas através do seu blog, tornar-se garoto-propaganda da sua empresa e inspiração para profissionais do ramo.

O difícil disso tudo é que tornar-se uma referência em algum assunto não é algo que acontece do dia para a noite. O moleque que só quer ganhar uns trocados (Pô, a grana é pra eu poder ir na balada) acha que sua atitude é inofensiva e não acha que está causando algum mal. Está, sim.

Quem age assim mata a galinha que ainda bota os ovos. Está causando mal a si próprio, perdendo tempo precioso que ele poderia usar trabalhando em algo mais interessante e aprendendo coisas realmente úteis. Está causando mal aos outros, aos “bons cidadãos”, ao praticar algo que pode trazer benefício no curto prazo às custas de um trabalho de longo prazo. Não acredita em mim? Veja por aí se não tem moleque fazendo troca-troca no AdSense? “Clica no meu que eu clico no seu”. Qual é o benefício disso? Dois moleques ganham dinheiro de pinga, e o Google reage mudando o sistema de cobrança. Pior ainda: os anunciantes do AdSense perdem a credibilidade no sistema e deixam de anunciar, prejudicando todos no processo.

Quando o Miguel começou a me pentelhar para escrever aqui, eu fiquei reticente: não iria escrever tanto sobre técnicas e dicas de tecnologia, e ele já faz isso com muita competência, então onde eu estaria adicionando alguma coisa útil a ser dita? Levei tempo para achar um caminho, até ter uma resposta mais ou menos satisfatória: vou escrever com uma idéia tão única quanto arrogante: eu quero escrever para redefinir a visão do trabalho do computeiro, engenheiro de software ou qualquer título que vá no seu hollerith. Aqui, meu trabalho vai ser redefinir o seu trabalho, aí.

Queremos aumentar o público? Claro que queremos. Queremos saber que tem gente que lê o que escrevemos? Claro que sim, ou nem me incomodaria de escrever num blog e teria um “querido diário”. Mas qualquer um que preza o seu trabalho jamais vai pautar o seu blog em cima de popularidade. Qualidade acima de quantidade. Isso é válido para qualquer coisa que fazemos com gosto e queremos sucesso: desenvolvimento de software, design, arte, literatura, namoros… até para a nossa audiência.

Como Produzir Riquezas

Meu último texto foi recebido como um bebê de fraldas sujas pelos leitores. A maior parte olhou com cuidado, disse “que bonitinho” e depois ficou sem saber o que fazer.

Afirmar algo como “agora você pode tomar as rédeas da sua vida produtiva” pode causar isso. A reação natural é se perguntar “Ok. Mas como é que o meu computador e minha conexão com a internet vão me ajudar a pagar o meu aluguel e meu aparelho ortodôntico?”.

Qualquer pessoa que te falar que tem uma receita infalível para ganhar dinheiro ou é louca, ou é vigarista.

O difícil é conseguir explicar de uma forma direta que riqueza e dinheiro não são a mesma coisa. E, levando em conta que eu tenho passado a maior parte do meu tempo trabalhando nos meus projetinhos (por enquanto) secretos, não vou tentar explicar isso melhor.

Vou usar um artigo de Paul Graham para isso.

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