Archive for the 'Idéias' Category

E agora Android?

Eu estava quase passando despercebido por uma notícia da semana retrasada. Parecia até uma notícia não muito relevante, mas pensando bem, achei que valia a pena comentar, já que este foi um assunto já discutido antes aqui neste blog.

Fiquei sabendo pelo blog do Doug Schaefer, principal mantenedor do CDT, que a Nokia tinha adquirido controle total sobre a Symbian. Em princípio a notícia não é muito impactante porque a Nokia já era uma das principais acionistas da Symbian. E era obvio que a Nokia tinha interesse direto no Symbian, que é um dos sistemas operacionais muito usados em SmartPhones. So far, so good.

Mas, como está no anúncio da Nokia, o propósito não é apenas controlar a Symbian. O objetivo final é abrir o código-fonte do Symbian OS sob licença EPL (Eclipse Public License), criando a Symbian Foundation. Com isto, a Nokia, que é a maior fabricante de celulares e de plataformas móveis atualmente, faz frente ao anúncio do Android feito pelo Google e da Open Handset Alliance o ano passado.

O mais interessante, no entanto, é observar o que vai acontecer daqui para a frente. O Android, até onde eu sei, é apenas a descrição de um padrão. Ele pode ter várias implementações. E apesar de a Nokia não fazer parte da Open Handset Alliance, muitas das outras empresas que junto com ela estão promovendo a abertura do código do Symbian fazem. Para a Nokia, como detentora do posto de líder de mercado, o importante era fazer um movimento dizendo que ela não está a revelia dos últimos acontecimentos em relação à criação de padrões abertos no mercado de celulares. Resta saber o que ela e seus parceiros no Symbian OS vao querer fazer com o Symbian OS de código-aberto: continuar com ele  sendo algo separado do Android ou torná-lo um sistema compatível com o padrão da Open Handset Alliance.

Software Livre e inovação

Tem uma coisa que o Raphael vira e mexe fala que me dá arrepios: “FOSS não funciona como estímulo para a inovação”. A última vez que eu me lembro que ele falou isso foi aqui. E pelo jeito não sou o único que tem estes arrepios como se pode ver pelo comentário do Carlos Costa neste mesmo post do Raphael.

E eu não sinto arrepios porque sou um defensor inveterado do software livre. Na verdade eu acho que existem coisas boas tanto do lado do software livre como do lado do software proprietário e acho que tem espaço para todo mundo. Sinto arrepios porque realmente acho que software livre tem muita inovação de verdade. O problema é que eu ainda não consegui achar um contra-exemplo cabal para você, Raphael. Pelo menos não para o sentido de inovação que eu acho que você quer dar à sua frase. :)

De certa forma eu concordo parcialmente que os conceitos implementados em software livre já foram testados no mercado. Isso é verdade muitas vezes. Mas eu acho que este ponto de vista é limitado. No fundo eu acho que os conceitos implementados em software livres são maduros o suficiente, tendo sido ou não implementados pelo mercado. Isto porque quando você se envolve em uma comunidade de pessoas, em geral a tendência é aceitar apenas coisas que já estejam maduras o suficiente e que portanto, irão muito provavelmente gerar código de qualidade.

Não me entendam mal: não acho que software livre não tenha inovação por completo. Se olharmos de perto o GCC, ou o Eclipse ou vários outros projetos open source veremos que eles tem sim uma grande dose de inovação. Mas eu diria que, na visão macro, eles são mais inovadores na forma de fazerem coisas que já existem do que na forma de criarem coisas novas. O que não impede, é claro, que muitos testes e invenções estejam sendo feitas na visão micro destes softwares. Eu diria que eles são mais parecidos com o que a Apple anda fazendo nos últimos anos(copiando conceitos já existentes e dando uma roupagem diferente a eles, inventando uma coisinha aqui e outra ali) do que com o que a Intel ou a IBM fazem no campo de processadores por exemplo (efetivamente pesquisando novas tecnologias e tentando aplicá-las no mundo real).

Aonde eu quero chegar com isso? Para mim o principal problema na frase do Raphael é o mal uso da palavra inovação.

O que é inovação? Quando eu vejo alguma coisa como “FOSS não funciona como estímulo à inovação” eu interpreto mais como “FOSS não funciona como estímulo para a invenção”. Até pouco tempo atrás eu achava muito sútil e muitas vezes inexistente a diferença entre invenção e inovação. Mas a cada dia eu venho me atentando mais para a diferença entre estas palavras. Invenção é realmente inventar coisas novas, fazer algo que nunca foi feito antes. Inovar não é necessariamente inventar: inovar é muitas vezes pegar algo que já existe e, com uma roupagem nova, criar algo que tenha um apelo ou uma utilidade ainda maior do que aquilo que existia antes. Ainda que eu não goste muito da frase, como diria Jean Paul Jacob, “Inovação é o enlace entre invenção e a visão do valor desta invenção”. É exatamente isto que a Apple anda fazendo muito bem nos últimos anos: efetivamente não inventando nada de novo, mas habilmente dando um novo valor e uma nova visão a produtos que já existiam.

Sob esta ótica eu acho que software livre é extremamente inovador. Inovador no modelo de desenvolvimento. Inovador nas idéias implementadas. E, algumas vezes, inovador ao inventar novas coisas e novos conceitos também. Como eu disse antes, ainda não achei um exemplo cabal de um produto completo de software livre que seja totalmente novo (e talvez aí esteja a falha na minha argumentação contra a frase do Raphael… alguém pode me ajudar?). E acho até que isto é apenas um reflexo da economia de mercado: se você inventou algo que acha bom, porque não ganhar dinheiro com isso? Software livre é muito usado em partes já comoditizadas de sistemas (o que não exclui inovação) e a parte de maior valor agregado tende a ser proprietária justamente para gerar mais lucro. Mesmo assim eu poderia citar diversas funcionalidades que foram implementadas antes em software livre (algumas até mesmo no projeto em que eu trabalho) e que nunca tinham sido feitas antes por nenhum outro software. Quer um exemplo? Suporte em sistema operacional, compiladores e debuggers a plataformas híbridas: processadores que possuem núcleos de diferenças arquiteturas no mesmo chip. Isso é totalmente novo. E apareceu primeiro em plataformas de código aberto. Se isto não é inovação, o que é então?

It’s the people, stupid

Agora que eu estou morando bem longe do eixo São Paulo-Campinas, acho que posso ficar mais à vontade para ser um pouco mais incisivo nos meus comentários. Mesmo que as besteiras que eu fale aqui acabem sendo muito in your face e irritem demais algum dos meus 4 leitores a ponto de deixá-los com vontade de partir pra porrada, me sinto mais seguro.

Por quê? Primeiro, as 9 horas de vôo vão fazer com que o sujeito esfrie um pouco a cabeça. Segundo, ao chegar aqui o sujeito provavelmente vai querer aproveitar pra passar numa loja de eletrônicos e comprar um iPhone 3G baratinho, baratinho. Terceiro e mais importante: nerd bravinho e partindo pra briga é a coisa mais ridícula do mundo, and I can take you all.

Mas vamos deixar de papo-furado e partir pra primeira de uma série de agressões verbais não-solicitadas: a culpa é sua se o Brasil é um lugar tão difícil para fazer novos negócios, imbecil.

É isso que eu estava pensando quando eu vi o post no Pythonologia, sobre a falta de inovação na web do Brasil. Não, a culpa não é do Osvaldo, longe disso. É sua mesmo, leitor, que está sentado no seu cubículo, reclamando da falta de oportunidades e do tanto que a empresa faz você trabalhar para garantir o seu salário “suado” do mês.

Armchair entrepreneur, é isso que você é. Bundão.

Sim, o governo é irresponsável e gasta erradamente as toneladas de recursos que arrecada através dos impostos. Sim, há muita burocracia. Sim, há pouco incentivo para querer trabalhar duro em um negócio próprio num país em que impera a Lei de Gérson. Sim, os custos de infra-estrutura no Brasil são absurdos. Sim, o ensino (básico e superior) no Brasil é uma lástima.

Mas vou te contar uma coisinha: nada disso importa mais, para quem não tem medo de arregaçar as mangas e mostrar sua capacidade para trabalhar e produzir riquezas. Pior de tudo; não é a primeira vez que eu digo isso.

Todas os problemas citados pelo Osvaldo existem realmente, mas podem muito bem ser evitados ou postergados. Na “web 2.0″, podemos deixar a papelada de abertura da empresa pra depois que você tiver um fluxo de caixa significativo. Podemos contratar um datacenter no exterior (é o que nós fizemos)  e fugir dos planos ridículos aqui oferecidos.

Dependendo da idade e da situação da pessoa que quer trabalhar em um projeto novo, podemos até reduzir nosso custo de vida para não precisar tirar dinheiro do próprio bolso durante a fase embrionária do projeto. Bastaria chegar para seus pais e falar: “Pai, Mãe, posso pegar o meu quarto de volta e morar com vocês enquanto o projeto que estou desenvolvendo não gera renda?”. Na verdade, já que fazemos parte da geração-canguru, há uma boa chance que você já esteja morando com os velhos mesmo, não é?

Sabe qual é a única coisa que não podemos contornar, o único recurso que nos falta? Pessoas dispostas a correr riscos. Pessoas que entendem que perder algumas batalhas é do jogo. Pessoas que fazem os sacrifícios necessários para alcançar um objetivo maior.

E como você não é esse tipo de pessoa que faz tanta falta no Brasil, podemos concluir que você é parte do problema e não da solução, malandro.

Ah, nem pense em dar a desculpa do “eu tenho família e filhos para sustentar, não posso correr riscos”. Toda pessoa que trabalha com investimento sabe que a exposição ao risco é algo calculado. Nem pense em dar essa desculpa patética, enquanto você fica medindo com seus amigos o quanto de retorno você está tendo na sua carteira de ações.

Mesmo quem não pode largar o seu emprego e montar a sua própria empresa pode assumir uma postura que promova o empreendedorismo e a inovação. Você não precisa largar o seu emprego para financiar um projeto Open Source, ou para se tornar um Angel Investor. Ou para juntar-se com um grupo de outros colegas da sua empresa e investir dinheiro em pessoas mais novas que tenham projetos ousados. Risco e recompensa são sempre proporcionais; você pode pensar em diminuir um pouco a sua quantidade de papéis da Petrobrás (que não precisa do seu dinheiro, anyway) e passe a investir em algo muito mais arriscado: startups. Quem sabe você não está diante do próximo Google?

Não quer colocar dinheiro? Torne-se mentor de um garoto na faculdade onde você estudou. Compartilhe com ele a sua experiência, a sua visão do mercado, a sua opinião a respeito das mudanças na sociedade que a tecnologia traz, etc. Em um mundo onde o custo operacional é nulo, essa ação pode ser ainda mais valiosa do que hard cash.

Pra encerrar, deixo as palavras do grande filósofo Ben Parker: “com grande poder, vem grande responsabilidade”. Qualquer pessoa que tenha conhecimento e técnica em mãos tem grande poder. Esse é o nosso caso. Cabe a nós, agora, saber usar esse poder de forma correta e responsável.