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Meu Quadro de Medalhas: Aprendendo Ruby

O Soro escreveu há um tempo atras sobre como conseguir motivação pra aprender algo novo, como uma linguagem de programação. Desde a primeira vez em que ouvi falar de Ruby, la em 2001, eu estou tentando achar algum jeito de aprender a linguagem, mas a procrastinação sempre fala mais alto. Acho que o único jeito que encontrei pra aprender uma nova linguagem é ter um projeto, alguma coisa prática de verdade, nem que seja algo meio sem sentido mesmo, só pra ter um objetivo concreto e ir aprendendo com as necessidades que vão surgindo. Como não tava tão inspirado pra criar um novo job4dev (que foi o “projetinho” do miguel), e estamos em tempos de Olimpíadas, eu resolvi aprender um pouco de Ruby escrevendo um programa pra gerar meus próprios quadros de medalhas.

Eu sempre tive uma certa ressalva com esses quadros de medalhas olímpicos. Em geral eles colocam medalhas de ouro acima das de prata, e essas acima das de bronze. Isso faz com que um país que tenha uma mísera medalha de ouro fique na frente de um outro que tenha 10 de prata, o que eu acho meio que injusto. É claro que agora com os EUA perdendo da China nos ouros, a TV americana tá colocando o ranking baseado no total de medalhas. Mas daí você tá dizendo que uma medalha de prata vale o mesmo que uma de ouro, o que não é a verdade. Uma solução seria colocar pesos pra cada tipo de medalha.

Outra coisa meio injusta é que na China tem muito mais gente que na Austrália, então um ranking baseado em população também seria interessante. E mais ainda, um atleta como o Michal Phelps consegue 8 medalhas numa olimpíada, mas um time completo de futebol consegue no máximo 1. Porque não multiplicar o valor da medalha pelo numero de atletas na equipe (titular, pelo menos)?

Então a idéia inicial que eu tive foi a seguinte. Estamos em plena Web2.0, então eu devo conseguir alguns serviços que provenham os dados necessários e eu faco uma espécie de mash-up, calculando meus rankings. Eu precisaria de 2 serviços, um com os dados sobre as medalhas e esportes, e outro com dados sobre as populações dos países.

Infelizmente logo na minha primeira tarefa eu já encontrei problemas. Informação é dinheiro, e foi impossível encontrar algum site na Web que disponibilizasse as informações sobre as medalhas. Existem vários sites mostrando tabelas ou disponibilizando RSS com noticias, mas uma API pras medalhas não existe. Acabei descobrindo que existe uma tal de World News Press Association que tem o monopólio das feeds sobre os eventos olímpicos e eu teria que pagar pra conseguir acesso (como o google fez).

A minha solução foi criar um programinha em Ruby que fizesse parser das paginas do UOL. Primeiro eu baixo a pagina do quadro geral de medalhas, daí eu recursivamente baixo as paginas de cada pais (que tem no combo box). Não é exatamente uma solução elegante, mas graças as boas tags no fonte da UOL e ao HPricot (uma biblioteca pra fazer parse de HTML) não foi tao difícil agregar os dados e gerar um CSV. Porem, surgiram dois problemas. Primeiro que eu tive que abandonar minha idéia de multiplicar as medalhas pelo numero de atletas no esporte, pois essa informação seria muito chata de conseguir. Depois que eu tive que criar uma tabela traduzindo os nomes dos países de português pra inglês, já que eu queria apresentar as tabelas em inglês, e os dados de população também estariam em inglês.

O segundo passo seria conseguir informações sobre população. Eu achei um tal de Population Reference Bureau com as informações necessárias, só que de novo esbarrei em problemas. Primeiro que eles não tem um RSS ou um web service, então eu tive que fazer copy e paste da tabela. E segundo que algumas informações relativas aos países são diferentes da pagina da UOL, ou tem que ser agregadas (por exemplo, tive que adicionar a população de varias colonias francesas na da França). Pra alguns países estranhos (como “Ilhas Virgens Americanas”), que não tinham informação no Bureau, eu tive que pegar no wikipedia mesmo.

Finalmente, com todos os dados em arquivos, eu pude criar um outro programinha em Ruby pra analisar os dados e gerar meus rankings. Eh claro que como isso é just for fun, a interface deixa muito a desejar. Mas pra quem tiver interesse, alguns rankings que eu gerei estão nesse diretório. Eu atualizo os dados usando o parser uma vez por dia. Os cabeçalhos dos rankings descrevem o que foi usado pra gerar os”values” pras medalhas (counters) e pro valor total (aggregators) a partir do numero de medalhas, e por quais campos ordenar os países.

Bom, lições aprendidas:

  • realmente o melhor jeito pra aprender uma linguagem de programação é usando. Eu não posso dizer que agora sou um programador Ruby, mas aprendi um monte de detalhes e foi bem melhor do que qualquer tutorial.
  • apesar de existir muita informação pela web, o mais chato (e difícil) é conseguir agregar a informação de varias fontes que em geral são “um pouquinho diferentes”. Por exemplo, não teria como automatizar o matching dos nomes dos países em diferentes línguas, nem como programar a intuição de “somar as populações das colonias”, a não ser que você tenha muito mais meta-informação, ou recorra a heurísticas.
  • a China nem é tao boa assim se a gente considerar o tamanho da população ;-)
  • o Brasil continua ruim, em qualquer ranking mais ou menos razoável que se faça.

O proximo passo seria aprender Ruby on Rails e fazer uma interface em que os usuarios pudessem escolher como fazer os rankings. Mas como eu teria que instalar outro servidor web e um banco de dados, e eu to meio sem tempo, vai ter que ficar pra depois… e se interessar a alguem eu mando os dados.

Gerenciando o Vicio de Checar Email

Um tempo atrás eu percebi que estava praticamente viciado em checar email. Eu estava programando com o Eclipse aberto ou coisa assim e a cada 2 ou 3 minutos eu abria rapidinho o Firefox e dava uma olhada no Gmail, passava pelo Thunderbird e verificava meu email da universidade, e daí voltava a programar. Na grande maioria das vezes nem tinha email pra mim, e na realidade eu nem tenho certeza de que acontecia alguma mudança de contexto no meu cérebro, já que eu continuava pensando no que estava programando. Era praticamente um reflexo automático e involuntário.

Bom, vicio é uma coisa muito difícil de se contornar. Quando você está realmente viciado, não tem como sair dessa facilmente. Principalmente se você não vê nenhuma conseqüência negativa muito grande no seu vicio. Então eu resolvi que o unico jeito seria gerenciar um pouco o vicio, torná-lo mais leve.

A minha solução foi instalar um daqueles ícones de painel que fica checando email periodicamente e muda de cor quando tem algo na caixa. Dessa forma, ao invés de ter o trabalho de abrir varias janelas, eu só dou uma batida de olho no canto da tela e pronto. Eu sei que isso não resolve meu vicio, mas certamente ameniza.

Eu sou usuário Linux há uns bons 10 anos, então vou falar dos leitores de email que achei interessante nessa plataforma, mas com certeza existem boas opções em Mac ou Windows, já que é um tipo de aplicação bem fácil de fazer (e existem há anos). Eu quase sempre usei KDE, mas depois de sofrer com KDE4 por 1 mês eu resolvi que não aguentava mais e mudei pro Xfce, com o qual estou mais que satisfeito. No painel do xfce, eu instalei o xfce4-mailwatch-plugin. É um plugin beeeem simples, que suporta vários protocolos e te avisa se chegou algum email. Apesar dele também suportar Gmail, eu preferi instalar o checkgmail, que não é especifico de xfce. É um leitor bem legal, que aproveita a API do Gmail pra te deixar ler o começo do email e executar algumas funções básicas, como marcar como lido, deletar, arquivar, etc. É muito bom, pois se eu vejo que o que recebi é lixo, eu simplesmente deleto ali, sem nem ir pro browser.

Bom, tem ainda o vicio do Google Reader que não tem solução simples. Mas pelo menos nesse eu não to tão viciado, já que tem tanta informação que eu reservo um horário do dia pra ler o que apareceu por lá. E em geral não é algo que eu quero saber imediatamente, como os emails.

Impressões da Discovery ‘08 - Parte 2

Um tempo atrás eu descrevi minhas impressões sobre a Discovery’08 e prometi continuar sobre mais uma palestra e o painel que assisti. Demorou um pouco mais do que esperado, mas felizmente eu consegui achar onde tinha deixado minhas anotações e lembrar dos pontos que queria comentar. Mas melhor do que isso, eu descobri que os organizadores fizeram podcasts de algumas palestras e discussões e colocaram à disposição no site. Então, quem quiser pegar o conteúdo na integra é só baixar os podcasts (estão em inglês).

Primeiro vamos à palestra do ministro da pesquisa e inovação de Ontario, Honorable John Wilkinson. Ele falou durante o almoço, o que não é muito agradável, mas a minha primeira impressão foi: como os políticos sabem falar bem! Não que os outros palestrantes não soubessem falar ou tivessem problemas no palco, mas o políticos são especialistas em falar as coisas de um jeito que parece até que eles realmente estão entendendo detalhes de todos os assuntos, mesmo que seja somente um texto escrito pelo assessor.

Mas falando do conteúdo, duas coisas me chamaram muito a atenção. Primeiro foi que o evento contava com enviados das embaixadas da China e da Índia. Nisso eu fiquei pensando: onde estaria o representante brasileiro? O governo brasileiro envia representantes para eventos os mais esdrúxulos possíveis, mas será que ninguém da embaixada em Ottawa ou do consulado em Toronto sabia desse evento e/ou se interessou por ele? Qual seria o motivo da missão brasileira no Canadá, somente dar suporte à cidadãos brasileiros, ou participar mais ativamente em parcerias que podem trazer benefícios enormes para o país? O Canadá não tem uma economia comparável, em tamanho, à dos EUA ou da Europa, mas é não é de se desprezar, como nossos concorrentes chineses e indianos sabem muito bem. Segundo o ministro, Ontario é o distrito do G8 (e possivelmente do mundo) com maior densidade de graduados em universidades (distritos seriam estados ou províncias, já que provavelmente existem focos menores com maior densidade). Isso significa um grande potencial de crescimento na região, já que conta com muita mão de obra qualificada (e um governo que, apesar de todos os problemas, tenta ajudar).

O segundo ponto interessante tem relação com os incentivos do governo provincial para a criação de novos negócios. Existem inúmeros projetos, mas dois chamam a atenção. Primeiro, o governo tem um projeto com um fundo de alguns bilhões de dólares pra investir em empresas de tecnologia. O interessante é que, se você tem um projeto e aplica para conseguir fundos, o governo garante que responde em 45 dias. Isso é realmente impressionante, pois avaliar um projeto desses sempre requer contatos com especialistas e outras milhões de burocracias atrapalhando. Segundo o ministro, o governo quer ser um “parceiro” que anda na “velocidade da nova economia”. Segundo, novas empresas que são baseadas em tecnologia própria tem 10 anos de isenção fiscal. Isso é o governo trabalhando pra ajudar as empresas, não pra chupar o sangue delas! Na minha última ida ao Brasil eu conversei com um amigo que abriu uma empresa de tecnologia. Ele me disse que cerca de 40% dos gastos da empresa eram impostos, desde taxas diretas da venda até encargos para os empregados. Se o governo cortasse esses impostos para empresas recém criadas, ele teria 40% mais investimento pra crescer! E depois o governo poderia reter 20% de impostos de um bolo muito maior. É claro que tem-se que tomar muito cuidado com essas medidas, senão vão surgir milhares de empresas se recriando a cada dois anos pra ficar sempre na categoria de “novas empresas”, mas eu imagino que algo bem pensado nessa direção seja muito proveitoso.

Bem, vamos ao painel então. O título era “Failures on the Road to Success” (literalmente, fracassos no caminho do sucesso). A proposta era basicamente discutir como fracassos fazem parte da busca por sucesso, principalmente em áreas muito imprevisíveis (veja no último texto sobre os Black Swans). Os palestrantes não entraram muito em conflito e todos eles defendiam a tese de que fracassos anteriores são considerados positivamente no vale do silício por analistas de investimento. Isto é, quando alguém vai analisar se vai pôr dinheiro na sua idéia, você ter feito uma besteira anterior é positivo, pois você ganhou experiência, talvez perdeu dinheiro (dos outros), mas tem mais chance de dar certo agora. Infelizmente, e isso eu achei o ponto fraco da discussão, nenhum dos palestrantes admitiu realmente ter fracassado feio. Somente um deles contou um caso em que o fracasso inicial no fim se transformou num sucesso (ele apostou na moeda errada, mas depois de alguns anos ela se tornou a certa). Ou seja, não sei até que ponto é só glamour essa idéia de glorificar o fracasso passado.

Mas outras duas mensagens curtas do painel também foram legais. Primeiro, eles pisaram e falaram mal de venture capitalists. Disseram que eles não estão nem aí para o seu negócio, tudo que querem é retorno do investimento, etc, tudo aquilo que a gente já sabe, mas é sempre bom repetir: no melhor dos mundos, cresça o quanto der, até sua empresa ter o máximo possível de valor de mercado antes de procurar investidores. Segundo, eles disseram nua e cruamente: cientistas da computação não sabem fazer negócios. Isso não significa que não existam computeiros que possam ser ótimos homens de negócios, mas simplesmente que o tipo de treinamento e skills necessários pra ser um bom manager, para negociar com clientes, etc, não é exatamente o que é ensinado em um curso de computação. A dica é, se você entende muito de tecnologia e sabe muito bem como desenvolver produtos, se concentre nessa área e se associe com uma pessoa que é especialista em vender a sua tecnologia e o seus produtos. Mais uma que a gente já sabia!

podcast!

No começo do mês o Miguel perguntou: podcast? Eu não venho aqui com a resposta pronta (apesar do título ser uma exclamação), mas esse post é um pouco pra reavivar a discussão.

Ultimamente tenho ido diariamente de bicicleta pro trabalho, o que leva em média uns 30 minutos, mais uns 10 minutos entre descer no elevador, destravar a bicicleta, travar de novo no trabalho e ir até o chuveiro. Isso faz com que eu tenha 80 minutos “livres” por dia, praticamente sem pensar em computação! Como bom computeiro, eu não podia deixar essa situação perdurar, então comecei a gravar podcasts no iPod e ir ouvindo no caminho. Por enquanto os assuntos não foram absorventes o suficiente pra me tirar a concentração no transito, e eu ainda não me matei…

Atualmente eu estou ouvindo as entrevistas do Markus Voelter na Software Engineering Radio (se-radio). Tem bastante coisa interessante por lá e eu to achando uma boa pra ter uma noção por cima de assuntos diversos. Eu acho que um podcast não é a mídia ideal pra passar os detalhes, mas você sempre pode correr atrás de saber mais sobre os assuntos que te interessaram mais.

A primeira pesquisa do post é : Que outros podcasts interessantes vocês conhecem, além do stackoverflow que foi mencionado no post anterior?

Naquele post foi discutida também a idéia de criar um podcast do log4dev (pod4dev ou cast4dev, quem sabe até podcast4dev). Eu particularmente acho que seria muuuito trabalho e acho que algumas características teriam que ser muito bem pensadas, como:

  • Assuntos: que tipo de assuntos seriam tratados no podcast? Se o intuito é somente dar a opinião sobre algum assunto, porque não usar o log4dev mesmo? Quero dizer, pra agregar valor, o podcast tem que aproveitar o seu diferencial, que é o som, então o conteúdo provavelmente tem que ser diferente do log4dev.
  • Duração: qual vai ser a duração média de uma transmissão? O Lucas comentou no post anterior que o ideal seria 25 minutos, pois não fica cansativo. Os podcasts da se-radio são entre 40 e 50 minutos, o que é OK pra mim, mas não funcionaria pra todos. Apesar das entrevistas dele não ficarem cansativas, eu acredito que se eu não tivesse tanto tempo “disponível”, eu não iria parar o meu trabalho pra ficar ouvindo (e olhando pra onde?). É claro que a duração também é muito influenciada pelo assunto: uma entrevista de 25 minutos é muito curta, principalmente quando o entrevistado é bem interessante, mas 50 minutos falando em monólogo sobre algum assunto qualquer fica maçante.
  • Equipamentos: que equipamentos teriam que ser adquiridos? Como o Evandro disse, não adianta fazer um podcast com um som porcaria, pois isso só iria irritar quem está tentando ouvir. Logo, alguns equipamentos de áudio teriam que ser adquiridos de alguma forma. Na se-radio, depois de um bom tempo com o som ruim, eles compraram um equipamento melhor, e depois conseguiram algumas doações e sponsors pra manter a radio funcionando, mas eu não acho que essa seja uma possibilidade realista.
  • Periodicidade: com qual periodicidade seria publicado o podcast? De novo, o se-radio garante que publica a cada 10 dias. Vale a pena o editor-chefe definir uma garantia dessas? Com certeza essas garantias agradam ao público, pois eles sabem o que esperar. O difícil é honrar o compromisso….

Esses são alguns pontos em que eu estive pensando e com certeza existem outros mais. A minha análise é obviamente muito baseada no se-radio que é o podcast com o qual eu tenho mais contato. Por isso mesmo a opinião de gente com mais experiência é muito importante.

Impressões da Discovery ‘08

(Mais uma contribuição do Thiago “Bart” Bartolomei. O editor-chefe devia estar com sono e esqueceu de publicar…)

Nesta última segunda e terça eu participei de uma conferência chamada OCE Discovery. Antes de falar sobre o evento em si, é melhor descrever um pouco do contexto. OCE (Ontario Centres of Excelence) é uma iniciativa do governo de Ontario, que é a província mais populosa do Canadá. A idéia principal da OCE é buscar parcerias entre as universidades da província e empresas baseadas por aqui, além de fomentar a criação de novas empresas baseadas em produtos e serviços de alta tecnologia. A Discovery é uma conferência anual onde os vários projetos financiados pela OCE se apresentam. Como meu orientador participa de um desses projetos, eu apresentei um poster sobre a nossa pesquisa, mas, mais importante, pude participar da conferência.

A conferência não é exatamente o que os acadêmicos chamam de conferência. Como o intuito principal é comercializar a pesquisa, os estandes eram bem marqueteados e o galpão me lembrou uma mini fenasoft. Nas minhas passeadas eu vi uns projetos bem interessantes, como um projeto em conjunto com a policia sobre como criar equipamentos para auxiliar os animais policiais (como cães farejadores, etc), vários projetos sobre novos combustíveis e novas tecnologias “verdes” e vários estandes de Venture Capital, gente querendo investir nas suas idéias (e ganhar muito com isso, é claro). Mas o que eu acho mais interessante pra contar aqui foram os assuntos dos 3 keynote speakers e de um painel que participei (bem, eu estava na platéia). Como o post estava ficando grande demais, eu vou falar agora sobre duas palestras e deixar uma palestra e o painel pra um próximo post. Vamos às minhas impressões.

O primeiro keynote foi do Nassim Nicholas Taleb, autor de um livro chamado “The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable”. Em suma, a teoria dele é de que os grande avanços da humanidade, tanto sociais, econômicos quanto científicos, se dão por eventos de grande impacto e extremamente improváveis e, portanto, imprevisíveis. Esses eventos ele chama de Black Swans. Um exemplo que ele deu foi, obviamente, o Google, mas outros eventos um pouco mais interessantes (pra teoria) foram a descoberta do viagra, da roda e a invenção da internet. Ele chama o viagra de descoberta, ao invés de invenção, porque o objetivo original da pesquisa do viagra era algo contra males do coração, se não me engano, e um efeito colateral do produto foi algo que revolucionou a vida sexual dos homens de meia idade. A roda é interessante porque, segundo ele, os maias construíram enormes pirâmides mas sem usar um carrinho de mão sequer. Eles tinham brinquedos com roda, mas ninguém na época teve a idéia de pegar aquelas rodas do brinquedo e montar um carrinho pra ajudar a carregar pedras. A invenção da internet é interessante por ser também um efeito colateral de uma aplicação militar, e ele cita que “algo que foi criado pra atacar os russos, acabou ajudando russas a casar com americanos pela internet”. Todas essas descobertas e invenções foram “meio que por acaso” e tiveram impactos enormes na vida dos homens de sua época. A solução que ele dá não é simplesmente ficar sentado pensando que não se deve fazer nada se as coisas ao acaso é que revolucionam o mundo. A solução é continuar com um plano, pois pequenos avancos são importantes, mas manter sempre os olhos bem abertos para os efeitos colaterais do que se está fazendo, pois muitas vezes basta olhar de um jeito diferente que se tem uma resposta pra um outro problema maior. Bem, quem quiser saber mais sobre a teoria, taí a dica do livro.

Eu vou pular agora pro terceiro keynote, que foi no fim da conferência. A palestra foi dada pelo Michael E. Raynor, que é um consultor especializado em análise de riscos e autor de um livro chamado “The Strategy Paradox”. A teoria dele é sobre que tipo de estratégia as empresas devem adotar pra se posicionar no mercado. Atualmente, os consultores dizem que as empresas tem que definir a sua identidade e seguir nesse caminho até o fim. Um exemplo. O Walmart é uma cadeia de supermercados e a sua identidade é “vende-se mais barato”. Essa é a identidade da rede e eles vão fazer de tudo pra vender o mais barato possível. A Daslu, ao contrário, vende somente produtos de extrema qualidade (OK, to exagerando um pouco, mas vocês entendem o exemplo). Essas empresas, que estão nos extremos da “linha da identidade”, são extremamente bem sucedidas, ganhando bilhões todos os anos. Agora imaginem empresas no meio termo. Ele cita a “Sears”, mas eu acho que poderia ser a C&A. Você entra numa dessas lojas e não sabe o que esperar. Você pode achar um produto de qualidade e preço bom, mas não é como ir ao Walmart, onde você sabe que o preço vai ser o melhor possível, em detrimento da qualidade, é claro. Os dados estatísticos catalogados pelos consultores mostram que empresas “no meio termo”, tem lucros bem menores do que empresas “nos extremos”. Conseqüentemente, eles falam que as empresas tem que apostar tudo em uma direção e esse vai ser o caminho pro sucesso.

A teoria do Michael é de que isso é um resultado furado, pois as estatísticas usadas se baseiam somente em empresas que sobreviveram. Ele fez então uma pesquisa usando uma base de dados que mostrava como atuavam as empresas que faliram. A surpresa dele foi que a grande maioria das empresas que estavam nos extremos faliu, enquanto que empresas no meio termo tinham uma probabilidade ínfima de falir. A teoria dele é então a seguinte. OK, se você quer ter os maiores lucros do mundo, você vai ter que lutar nos extremos. Infelizmente, somente uma empresa vence em cada extremo, enquanto as outras vão à falência. Agora se você quiser sobreviver com um lucro menor, tem que diversificar e ficar no meio termo. Ou seja, junto com a possibilidade de ganhar bilhões, aumenta a probabilidade de falir, isto é, aumenta o risco. Então ele divide a hierarquia das empresas em 3 grandes níveis. No topo fica o conselho, onde as decisões que devem ser tomadas devem visar manter opções abertas no futuro, de 5 a 20 anos (que eh incerto, como vimos na palestra anterior). Um exemplo desse tipo de atitude é a Microsoft, que desde o começo agiu sempre tentando manter as opções (como quando eles tinham o DOS pra interface de texto, produziam o Windows e o OS/2 em GUIs e ainda criavam o Office, tudo ao mesmo tempo, só pra ver o que é que vai pegar no futuro). No meio escalão estão os gerentes gerais, que devem pensar no prazo de 3 a 5 anos, sobre como posicionar certos produtos no mercado, que tecnologias adotar, etc. E no baixo escalão estariam os gerentes de produto, que devem pensar no imediato até 3 anos sobre um produto, tendo a identidade já bem definida, agindo como se fosse um dos “extremos”. Dessa forma, cada uma das instâncias da camada de baixo estaria agindo como um pequeno Walmart em um certo setor. Se um deles falhar, existe mais chance de um outro ganhar, e então a empresa tem opções de se posicionar da melhor forma possível.

Bom, achei as palestras bem interessantes e acho que ainda preciso de mais tempo pra remoer melhor os conceitos e as idéias apresentadas. Numa breve ocasião eu comento sobre o restante do evento.

[Bart é Eng. de Computação formado pela UNICAMP, ex ponta esquerda e central do glorioso time de Handball da Computação e atual doutorando da Universidade de Waterloo, do Canadá.]

Carreira e Pós-Graduação

Por Thiago “Bart” Bartolomei

Este post nasceu de um email que eu mandei para amigos esta semana. O objetivo é de abrir uma discussão sobre a validade de se fazer uma pós graduação em área técnica. O que eu vou escrever aqui é a minha percepção, e eu gostaria que vocês comentassem, já que depois da nossa graduação muitos de nós seguiram caminhos bem diferentes na carreira.

Existem basicamente 4 “opções de carreiras” pra quem se formou em Engenharia ou Ciência de Computação (sem contar mudar totalmente de área). Você pode entrar na área de consultoria não-técnica (financeira, management, etc): neste caso, acho que o que mais vale a pena eh fazer um MBA. Pelo que tenho visto, Stanford é a melhor opção, mas eu não tenho experiência pra comentar muito sobre isso.

A segunda opção seria você continuar na área da computação, mas partir pra algo mais gerencial. Nesse caso, o ideal talvez fosse fazer algum MBA mais voltado pra TI, talvez um mestrado em área técnica, desde que voltado pra gerência de processos, qualidade ou coisa assim.

A terceira opção seria ficar na área técnica mesmo. É claro que é bem difícil você ficar programando low-level a sua carreira inteira: alguma hora você vai ter que subir pra algo mais gerencial. Mas de qualquer forma, o foco seria tecnologia.

Finalmente, a quarta opção seria você fazer uma carreira “acadêmica”. Eu coloco entre aspas pois eu considero que hoje em dia ninguém vai ser professor de universidade e ficar num mundo paralelo, mas vai ter contatos com a indústria pra manter os pés no chão (e o dinheiro entrando). Eu também considero trabalhar em centros de pesquisa privados como carreira “acadêmica”.

Nesses dois últimos casos, eu vejo pós-graduação em área técnica como algo essencial. Eu tenho alguma experiência em universidades e empresas no Brasil, na Alemanha, no Canadá e conheço historias sobre EUA e outros países europeus. Na Europa praticamente todos saem da universidade com mestrado. O doutorado dura somente 3 anos e é bastante voltado pra indústria, que absorve essa mão de obra qualificada. No Canadá e nos EUA muitos fazem mestrado e os PhDs são muito bem vindos pela indústria. O diploma é essencial para entrar em grandes laboratórios de pesquisa (como IBM, Sun e Google), e inclusive já ouvi histórias de algumas empresas européias em que você simplesmente não sobe na carreira (mesmo em área gerencial) sem ter um PhD (nem que seja um PhD em Física ou Antropologia).

Em resumo, MSc e PhD são títulos muito bem vistos não somente por universidades, mas também por empresas.

Me parece que no Brasil as coisas não são bem assim: um profissional com doutorado é visto como alguém muito caro, que não vai trazer mais benefícios pra empresa do que um recém-graduado (que é muito mais barato). Por isso, a única opção pra doutores é tornar-se professor de universidades ou fundar a própria empresa (provavelmente uma consultoria técnica). Eu tenho a impressão que mestrado já não é mais visto como um problema, pois tenho visto bastante gente obtendo o título e depois indo para empresas.

Mas eu acredito que o mercado pra PhDs vai aumentar conforme o Brasil cresce e entra no mercado global em que o conhecimento e a tecnologia são as coisas mais importantes. Então as empresas vão aprender, como já o fazem as empresas indianas e chinesas, que um PhD pode trazer um conhecimento de ponta importantíssimo pra aumentar a competitividade da empresa.

Esta é a minha percepção. Vocês concordam com isso? Críticas? Sugestões?

[Bart é Eng. de Computação formado pela UNICAMP, ex ponta esquerda e central do glorioso time de Handball da Computação e atual doutorando da Universidade de Waterloo, do Canadá.]