Power to the people
Um comentário interessante sobre o meu texto falando do sistemas distribuídos de versão foi do Bruno, que falou que tal arranjo não funcionaria em uma empresa estruturada de forma mais tradicional, onde as responsabilidades são (em teoria) divididas pela hierarquia, experiência anterior, etc.
De certa forma, ele está certo. Tecnicamente, até podemos utilizar uma ferramenta que tem uma arquitetura distribuída e usá-la de uma forma degenerada: bastaria deixar um dos repositórios como o repositório “oficial”, e passaríamos a ter um esquema mais parecido com a organização atual.
Mas uma mudança dessa natureza levaria justamente à perda do que eu considero como a feature mais importante do DVCS, que é permitir a troca de trabalho entre os indivíduos livremente, sem termos que passar pelo crivo de algum processo. O trabalho deixaria de ocorrer exclusivamente nas folhas e teria que passar por alguns nós acima. Acho que é isso que ele quis dizer quando comentou que “claramente não funcionaria em uma empresa tradicional”.
O que me deixa pensando, entretanto, é o seguinte: não seria a hora das empresas começarem a perceber que o esquema delas pode estar errado? Toda a noção de hierarquia e experiência anterior como parâmetro de confiança em um profissional é uma medida indireta, no melhor caso. No pior caso, é apenas uma desculpa para termos uma instituição regida não pelos mais competentes, mas pelos que são melhores em política corporativa.
Instituições
O problema, creio eu, está na crescente obsolescência das Instituições. E as empresas serão as primeiras a sofrer com isso.
Instituições surgiram justamente para dar as pessoas confiança em relações entre as pessoas que não se conhecem. Eu posso apresentar o meu RG para um total estranho em um bar, e ele vai aceitar o documento como prova de que eu tenho permissão para beber. Eu posso pegar o meu diploma de engenheiro, passar no CREA, e de uma hora para a outra as pessoas aceitam a idéia de que eu sou apto a construir uma casa. Se eu chegar em um restaurante sem dinheiro e falar que vou pagar depois, rirão da minha cara. Entretanto, um cartão de crédito funciona da mesma forma: é uma instituição que está garantindo que eu vou, sim, pagar depois.
Se fosse esse o único papel das Instituições, não teríamos problema. O problema é que, ao deixarmos que uma Instituição defina o limite inferior de confiança que podemos ter em desconhecidos, ela acaba implicitamente estabelecendo os termos de um contrato e remove a opção de um dos indivíduos usar o seu bom senso. Por exemplo, um dono de bar pode vetar a venda de bebida para um menor de idade - por mais responsável que o menor possa vir a ser - mas não pode vetar a venda de bebida para um alcoólatra ou para alguém que parece ter passado da conta e pode provocar uma briga. Se eu for um bom falsificador de dinheiro, eu poderia comer de graça em qualquer lugar do país.
A Internet mudou esse jogo de uma forma extraordinária. Quando as pessoas passam a ter um meio de comunicar outras formas diretamente, sem precisar passar por intermediários que digam qual é a forma que o relacionamento entre as pessoas deve se dar, elas mesmas passam a criar o seu círculo de confiança. E com isso elas podem, elas mesmas, definirem com quem e de que forma se dará o seu relacionamento profissional, afetivo, pessoal, comercial… as Instituições ficam obsoletas.
Evolução
Romper com a tradição é difícil. As empresas não vão passar a adotar de uma hora pra outra uma técnica nova. Ainda mais quando uma mudança de técnica implica numa mudança do seu próprio sistema de valores. Elas só tomarão consciência que essa mudança é necessária quando alguém menor, que não tenha nada a perder em adotar essa nova técnica, superá-las no seu próprio jogo.
É assim que se dá a evolução. Muitos mantêm a idéia de que é possível uma entidade já desenvolvida “evoluir”, mudando a sua forma e sua natureza. Essa é uma idéia errada, baseada nos conceitos de Lamarck. A evolução nos moldes de Darwin fala em variabilidade de atributos e “sobrevivência dos mais aptos” ao ambiente. E hoje, parece-me que o ambiente está cada vez mais favorável àqueles que estão largando sua dependência das Instituições e buscando estabelecer seus canais de relacionamento diretamente com as partes envolvidas.
De uma forma ou de outra, são as pessoas que importam. Não a Corporação. Se a Corporação não entender isso, azar o dela.

Raphael,
Não querendo, pelo menos por hora, entrar em questões mais filosóficas, eu diria que para, por exemplo, um DVCS funcionar em uma empresa “tradicional” da maneira para a qual ele foi concebido, uma premissa essencial deve estar presente: ter no mínimo em sua maior parte, bons desenvolvedores, bons mesmo.
E não estou falando de gênios, mas sim pessoas profissionalmente maduras e experientes para ter o tipo de liberdade que as tarefas que cercam um DVCS exigem.
Isto meio que vale para o que você disse em termos mais gerais, já que para eliminar os mecanismos de controle que as tais instituições utilizam e exigem, é necessária uma confiança em seus colaboradores que não pode ser simplesmente depositada em qualquer profissional que bata a sua porta.
Creio que não seja segredo para nenhum bom desenvolvedor o fato de que o mercado está cheio de profissionais bem abaixo da média, e falo até em termos de atitude e maturidade, pois conhecimento técnico, bem… Este é bem mais fácil de adquirir.
Lembrando também que quando as somas de dinheiro se tornam muito elevadas, a burocracia tem seu papel (eficaz ou não…) bem colocado, o papel de controle e rastreabilidade de como os recursos foram empregados e por quem. E a mesma burocracia é exigida por outras instituições como grandes Bancos ou empresas parceiras.
Por fim, também sabemos que uma empresa tem várias facetas, e a retirada de controles rígidos e cadeias de comando altamente hierarquizadas pode ser algo bem plausível em centros de pesquisa internos, mas talvez esteja longe de ser um perfil de diversos outros departamentos, ou até mesmo longe do perfil de diversos tipos de negócio.
A burocracia, o micro-controle ou o gerenciamento de cada diminuta atividade das tarefas diárias de um desenvolvedor pode sim, e certamente irá, tolher a criatividade do mesmo. Mas nem todos os trabalhos são criativos, por isto acho que as suas considerações funcionam bem se focadas no desenvolvimento de software e não nas instituições de uma maneira geral.
Resumindo, liberdade no trabalho é ótima, se você tem uma equipe que possa recebê-la. Mas nem todos os tipos de trabalho tem este perfil.
Quando alguém mostrar diferencial financeiro elas mudarão. Enquanto permanecer o “blá”, nada acontecerá.
Att,
Ricardo Capitanio
Ótimo. Concordo com você. E o que vamos fazer para sair das palavras e partir para ação?