Carreira e Pós-Graduação
Por Thiago “Bart” Bartolomei
Este post nasceu de um email que eu mandei para amigos esta semana. O objetivo é de abrir uma discussão sobre a validade de se fazer uma pós graduação em área técnica. O que eu vou escrever aqui é a minha percepção, e eu gostaria que vocês comentassem, já que depois da nossa graduação muitos de nós seguiram caminhos bem diferentes na carreira.
Existem basicamente 4 “opções de carreiras” pra quem se formou em Engenharia ou Ciência de Computação (sem contar mudar totalmente de área). Você pode entrar na área de consultoria não-técnica (financeira, management, etc): neste caso, acho que o que mais vale a pena eh fazer um MBA. Pelo que tenho visto, Stanford é a melhor opção, mas eu não tenho experiência pra comentar muito sobre isso.
A segunda opção seria você continuar na área da computação, mas partir pra algo mais gerencial. Nesse caso, o ideal talvez fosse fazer algum MBA mais voltado pra TI, talvez um mestrado em área técnica, desde que voltado pra gerência de processos, qualidade ou coisa assim.
A terceira opção seria ficar na área técnica mesmo. É claro que é bem difícil você ficar programando low-level a sua carreira inteira: alguma hora você vai ter que subir pra algo mais gerencial. Mas de qualquer forma, o foco seria tecnologia.
Finalmente, a quarta opção seria você fazer uma carreira “acadêmica”. Eu coloco entre aspas pois eu considero que hoje em dia ninguém vai ser professor de universidade e ficar num mundo paralelo, mas vai ter contatos com a indústria pra manter os pés no chão (e o dinheiro entrando). Eu também considero trabalhar em centros de pesquisa privados como carreira “acadêmica”.
Nesses dois últimos casos, eu vejo pós-graduação em área técnica como algo essencial. Eu tenho alguma experiência em universidades e empresas no Brasil, na Alemanha, no Canadá e conheço historias sobre EUA e outros países europeus. Na Europa praticamente todos saem da universidade com mestrado. O doutorado dura somente 3 anos e é bastante voltado pra indústria, que absorve essa mão de obra qualificada. No Canadá e nos EUA muitos fazem mestrado e os PhDs são muito bem vindos pela indústria. O diploma é essencial para entrar em grandes laboratórios de pesquisa (como IBM, Sun e Google), e inclusive já ouvi histórias de algumas empresas européias em que você simplesmente não sobe na carreira (mesmo em área gerencial) sem ter um PhD (nem que seja um PhD em Física ou Antropologia).
Em resumo, MSc e PhD são títulos muito bem vistos não somente por universidades, mas também por empresas.
Me parece que no Brasil as coisas não são bem assim: um profissional com doutorado é visto como alguém muito caro, que não vai trazer mais benefícios pra empresa do que um recém-graduado (que é muito mais barato). Por isso, a única opção pra doutores é tornar-se professor de universidades ou fundar a própria empresa (provavelmente uma consultoria técnica). Eu tenho a impressão que mestrado já não é mais visto como um problema, pois tenho visto bastante gente obtendo o título e depois indo para empresas.
Mas eu acredito que o mercado pra PhDs vai aumentar conforme o Brasil cresce e entra no mercado global em que o conhecimento e a tecnologia são as coisas mais importantes. Então as empresas vão aprender, como já o fazem as empresas indianas e chinesas, que um PhD pode trazer um conhecimento de ponta importantíssimo pra aumentar a competitividade da empresa.
Esta é a minha percepção. Vocês concordam com isso? Críticas? Sugestões?
[Bart é Eng. de Computação formado pela UNICAMP, ex ponta esquerda e central do glorioso time de Handball da Computação e atual doutorando da Universidade de Waterloo, do Canadá.]

5a opção:
Aproveitar:
- o cenário mundial de excessiva liquidez de capital (ou seja: muito dinheiro sobrando)
- custo operacional cada vez menor (qual é o capital inicial necessário hoje para uma empresa de tecnologia?)
- abertura contínua dos mercados relevantes (você pode vender software ou serviços para qualquer canto do mundo, exceto a China);
e montar você mesmo algum produto que satisfaça algum anseio do mercado consumidor.
Bart,
Eu acho que no final você misturou um pouco o cenário brasileiro e o cenário mundial com suas terceiras e quarta opções. Mas de uma forma geral eu concordo com o que você escreveu.
A terceira opção, ficar na área técnica, é algo muito difícil no Brasil. Isto porque no país não existe a cultura de que bons programadores podem ser peças chave de uma empresa. Aposta-se muito mais em mão-de-obra sem experiência e, conseqüentemente, mais barata pois entende-se que qualquer um pode programar desde que bem orientado. Com isso a maior parte das pessoas que começam na área técnica acaba virando gerente depois de um tempo.
Fora do Brasil e em algumas poucas empresas que conheço por aqui, no entanto, existe a perspectiva de carreira técnica de longo prazo. Conheço algumas pessoas que programam Kernel de sistemas operacionais há mais de 15 anos ou que programa compiladores há mais de 20 anos! E continuam fazendo isso ainda hoje. É claro que com o tempo estas pessoas ganham mais responsabilidades e acabam sendo responsáveis também pelo direcionamento estratégico das ferramentas que desenvolvem, mas ainda assim é um trabalho que exige muito conhecimento técnico. Eu diria que neste caso, inserido na sua terceira opção, uma pós-graduação pode ser desejável mas não é realmente essencial. O que vale mais é sua experiência. Mas, é claro, em algumas empresas valoriza-se uma pós-graduação. Mesmo assim, eu diria que se você quer iniciar uma carreira técnica no Brasil hoje, tanto faz você ser graduado ou ter mestrado em relação à questão salarial. É claro que eu acho que suas chances poderiam ser um pouco maiores se você tiver mestrado. Mas, se você tiver doutorado, eu acho que você estaria quase que automaticamente excluído deste tipo de carreira no Brasil, pois as empresas iriam te achar caro demais. Fora do Brasil acho que existe um maior apelo para estas pessoas pós-graduadas, mas como disse anteriormente, não acho que isso seja determinante para você seguir uma carreira técnica.
Já em relação à opção 4, aí sim acho que uma pós-graduação, especialmente um doutorado, são essenciais. Da mesma forma em que conheço poucas pessoas em carreiras técnicas com pós-graduação, não conheço ninguém em carreira “acadêmica” já há alguns anos sem doutorado. Mas ai eu volto à diferença entre Brasil e o resto do mundo “desenvolvido”. Fora daqui existem laboratórios de pesquisa privados que contratam muita gente. No Brasil acho que a única carreira acadêmica possível é em universidades, já que não me vem à cabeça nenhuma empresa com laboratório de pesquisa estruturados no Brasil.
Um abraço,
Leonardo Garcia
Você pode vir a ser um empresário ou trabalhar de freelancer.
Estes requerem menos especialização acadêmica, mas mais especialização profissional e prática.
Desde que bem feito e se destacando no que faz, existe sucesso em qualquer uma das carreiras