Ócio criativo
Há algum tempo atrás, um colega de projeto mandou para os membros da equipe o link para o artigo Você é um profissional ou um moleque?, escrito pelo Vitor Pamplona. A idéia central do texto é tentar estabelecer meios de se determinar se um indivíduo é ou não um bom profissional. O texto termina assim:
“Uma boa pergunta a se fazer é: se você fosse sócio da empresa onde você trabalha, o quão mais você trabalharia? Faça uma regra de três e veja o % de seu profissionalismo. No final, não se assuste se você concluir que profissionalismo depende diretamente de ASSUMIR RESPONSABILIDADES.”
Considero que o texto termina bem. De fato, um bom profissional é aquele que assume suas responsabilidades e executa suas tarefas com seriedade e com zelo de sócio. Muito bem. Infelizmente não concordo com o trecho central do texto. Aquela na qual o autor define o que um bom sócio faria:
“Você permitiria, por exemplo, que um profissional contratado pela sua empresa passasse digamos, meia hora por dia no orkut? Ou, quem sabe, você permitiria que seu funcionário lesse e-mails de piadas e mensagens de auto-ajuda durante o expediente? E aquele que combina uma festa pelo msn durante o expediente? Se você não permitiria este tipo de atitude, então porque você as faz? Quanto tempo do seu dia útil você simplesmente joga fora? Dia útil é o dia produtivo, ficar tomando café, por exemplo, é tempo jogado fora. Ler notícias repetidas, blogs sem conteúdo (talvez esta leitura), perder tempo com instalação da versão SEMPRE mais nova de um software. Tudo isso é perda de tempo útil. Se, ao chegar na empresa, sua primeira ação é tomar um café e ler noticias, você está perdendo tempo! Deveria ter feito isso em casa, e não no seu período de produção.”
Com certeza, se fosse sócio faria todas estas coisas. Simplesmente porque nenhum bom profissional de tecnologia consegue ficar o dia inteiro focando apenas no trabalho, mantendo a qualidade do que faz. Considero que nossa profissão exige uma boa dose de trabalho intelectual (note bem: estou falando de BONS DESENVOLVEDORES), e portanto passamos uma boa parte do tempo queimando neurônios (ressalto mais uma vez: estou falando de BONS DESENVOLVEDORES).
O conceito de ócio criativo é algo que eu considero importantíssimo para que um trabalho seja feito com qualidade. As vezes, 15 minutos de pausa para café e papo sem compromisso permitem que uma solução seja encontrada. Muitas vezes, uma pequena pesquisa pela internet, em blogs, sites especializados e fóruns permite encontrar modos mais eficientes de se resolver um problema. E acreditem: no mundo em geral, e na tecnologia em particular, muitas vezes o barato sai caro. E a conta no final fica altíssima. Que jogue a primeira pedra aquele que nunca viu um algoritmo tosco escrito por alguém que simplesmente queria entregar.
Muitas vezes, quando eu falava isso em rodas de amigos e com gente fora da profissão, tinha a impressão de que as pessoas me olhavam com cara de freak. “Isso é coisa de computeiro que se acha diferente, e que quer ficar no oba oba”. Mas dois textos me mostraram que não só eu tenho razão, mas também que este problema tem afetado a qualidade do trabalho em outras áreas.
O primeiro texto, A falta de first life nas agências foi publicado no Webinsider pelo Cezar Caligáris. Segundo o autor, as grandes agências de publicidade brasileiras estão perdendo qualidade. Motivo?
“Uma idéia é semelhante a uma receita. Você pode fazer desde um prato básico que funciona até experimentar algo novo que surpreende. Mas para conhecer os “ingredientes” que estarão no seu anúncio ou campanha, você precisa ter referências na vida real. Algo que os publicitários têm cada vez menos tempo para buscar. Passando cada vez mais tempo nas agências, não sobra tempo para conviver com outras pessoas e, consequentemente, ter emoções e sentimentos. Imagine quantas boas idéias aparecem, por exemplo, do convívio com um filho? Em uma ida a um restaurante, observando as pessoas ao seu redor? Até mesmo a tristeza pode ser inspiradora – quantas músicas incríveis não vieram desse sentimento?”
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