Despersonalizando o conhecimento
Como trabalho em uma cidade diferente da que resido, pego uma van, com outros funcionários da empresa (além de alguns de empresas próximas), para chegarmos ao local de trabalho. Normalmente, viajo dormindo e babando, mas hoje, diferente dos outros dias, tivemos discussões interessantes a respeito de nosso ambiente de trabalho. Um dos problemas discutidos diz respeito à perda de pessoas para outras empresas do setor, e o impacto que isto tem sobre nossas atividades. Por sermos uma empresa focada em pesquisa e desenvolvimento, as baixas de funcionários normalmente resultam em perda de conhecimento, prejudicando imensamente o andamento de nossas atividades.
Dentro deste contexto, um de meus colegas citou a seguinte frase: “O maior ativo de nossa empresa são as pessoas“.
Está é uma frase de grande impacto, muitas vezes proferidas pelo RH das empresas, para mostrar a seus funcionários o quanto elas são importantes dentro da estrutura. Mas, refletindo um pouco, chego à conclusão de que esta frase está completamente errada. O maior ativo de uma empresa não são - e nem pode ser - as pessoas, mas sim o conhecimento que elas geram. O que leva as empresas a exaltarem o valor de seus funcionários é uma política que permite a personalização do conhecimento, em detrimento de seu compartilhamento. Desta forma, quando um funcionário deixa a corporação, leva consigo algo de extremo valor, que nenhum outro colaborador é capaz de reproduzir imediatamente, causando prejuízos diversos - atrasos em projetos, necessidade de reestruturação, entre outros.
Para contornar isto, as empresas são obrigadas a remunerar melhor as pessoas, de acordo com a quantidade de conhecimento que esta pessoa adquiriu e que ninguém mais conhece, para evitar prejuízos em suas operações. De certa forma, a empresa acaba ficando escrava do funcionário (apesar de num primeiro instante, isto soar ridículo). No entanto, isto pode ser evitado, desde que ataquemos o problema real, ou seja, evitar que o conhecimento se acumule sobre uma ou poucas pessoas. É claro que nem sempre isto é possível, mas vou tentar colocar aqui algumas alternativas para pelo menos minimizar este problema.
- Diminua a verticalização: muitas empresas se estruturam de forma a manter diversos níveis hierárquicos. Quanto maior a quantidade de níveis, mais difícil é divulgar o conhecimento, pois este tende a fluir melhor entre pessoas de um mesmo nível hierárquico. O problema maior se encontra na transmissão do conhecimento de cima para baixo - é muito comum que os chefes omitam informações de seus subordinados, muitas vezes por não acharem útil a eles, e em alguns casos, para manter seu status quo
- Evite a formação de especialistas: mesmo em uma equipe formada por pessoas no mesmo nível hierárquico, é comum que cada uma delas tenha responsabilidades específicas (na área de desenvolvimento de softwares, existir uma equipe com DBA, analista, programador, testador), ou trabalhem em projetos específicos. O ideal é criar uma estrutura onde todos sejam capazes de realizar qualquer tipo de tarefa (mesmo que tenha maior responsabilidade sobre um tipo específico), e no caso de equipes muito pequenas trabalhando em cada projeto, que estas se alternem periodicamente entre os diferentes projetos, de preferência escalonando os membros da equipe
- Crie estruturas para armazenar e divulgar o conhecimento: a utilização de sistemas informáticos para documentar e divulgar o que os colaboradores estão fazendo, processos da empresa, guias de operações, entre outros é fundamental para espalhar o conhecimento dentro da organização. Várias ferramentas (inclusive open-source) podem ser utilizadas para este fim, como wiki’s e blogs. Além disto, a divulgação dos trabalhos através de seminários e palestras periódicos, que estimulem também a discussão, é útil não somente para espalhar o conhecimento, mas também para desenvolvê-lo, ao permitir que pessoas de diferentes áreas, com diferentes olhares possam analisar os problemas sobre outra perspectiva.
- Crie um ambiente social propício: isto talvez seja o mais difícil, mas é de fundamental importância. A criação de um ambiente colaborativo, que faça com que as pessoas queiram compartilhar conhecimento, depende do perfil dos colaboradores, e do clima da empresa. Animosidades e inimizades entre funcionários, assim como um ambiente profissional que valorize a competição e o individualismo, minarão qualquer tentativa de despersonalizar o conhecimento. Desta forma, preste atenção ao contratar, não somente nos aspectos técnicos, mas também nos aspectos de sociabilidade de seu candidato - para tanto, é sempre bom consultar a equipe que irá trabalhar com o candidato, caso este seja aprovado (já falei a respeito anteriormente). Além disso, valorize e premie os “compartilhadores”.
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Alexandre,
Concordo plenamente com você e acho que em empresas onde é feito pesquisa e desenvolvimento esta questão é ainda mais complicada e, talvez por isso, mais difícil de gerenciar.
Quando falamos de empresas estilo fábrica de software, este problema eu acho que foi bem mapeado e está relativamente bem resolvido com técnicas de engenharia de software (CMMI, por exemplo). Mas quando falamos de pesquisa e desenvolvimento esta tarefa é mais complicada porque, por mais que se tente, não há um fluxo de trabalho que seja totalmente previsível e, raramente, existem tarefas que são repetidades várias vezes. Eu diria que os métodos que você descreveu são um bom começo para tentar solucionar este problema.
Um abraço,
Leonardo Garcia
Um texto interessante a este respeito:
http://www.testearly.com/2007/08/17/fire-your-best-peoplereward-the-lazy-ones/
[]s