A Economia Digital
Para todos os meus quatro leitores que sentiram a minha falta, peço desculpas. Eu tenho uma série de textos que precisam sair da minha pilha, mas estou constantemente esbarrando num problema: como explicar um conceito novo do qual quero tratar sem apresentar os princípios que estão por trás de tudo?
A resposta para essa perguntinha se mostrou mais difícil do que ensinar a minha tia-avó a instalar o Linux na máquina de costura dela.
Em suma, eu jamais conseguiria fechar um texto sem falar antes de algo que, se bem utilizado, pode te fazer ver coisas rotineiras de uma forma radicalmente diferente. E não estou falando de lentes de contato.
Os desenvolvimentos em computação e sobretudo em telecomunicações estão servindo para algo muito maior que uma mera corrida para ver quem tem o computador mais rápido ou um celular 3,14156G. A tecnologia atual está, com efeito, levando a alterações na forma que as pessoas trabalham, consomem bens e serviços, se comunicam, se relacionam profissionalmente e até mesmo afetivamente.
Qualquer um que não dormia durante as aulas de História vai perceber que a última frase é válida para qualquer época da humanidade, e especialmente verdadeira depois do surgimento do Capitalismo. Com um pouco de cuidado, você vai lembrar que o avanço das técnicas de agricultura promoveram o processo de urbanização, ou que o avanço das técnicas de construção de navios permitiram o desenvolvimento do comércio com regiões distantes (e assim a obtenção de mais riquezas, como especiarias). Vai lembrar também da revolução industrial, causada pelo desenvolvimento do motor a vapor, e a possibilidade de novas riquezas serem criadas a partir de máquinas.
Existe uma coisa, entretanto, que é muito peculiar a essa revolução, e já vou falar dela. Mas antes, perceba que as mudanças anteriores alteraram o cenário econômico de forma significativa, mas uma coisa permanecia igual: o controle dos meios de produção.
No Capitalismo Comercial (versão beta), importava mesmo quem era capaz de fazer com que a mercadoria saísse do ponto A e chegasse no ponto B – bônus para quem escapasse de piratas e saques bárbaros no trajeto.
No Capitalismo Industrial (versão 1.0), quem ditava a norma era aquele que era capaz de produzir mais, ou seja, quem tivesse mais crianças de 8 anos de idade trabalhando 14 horas por dia trabalhando em suas fábricas.
No Capitalismo Financeiro (versão 2.0), o manda-chuva era quem conseguia dispor da grana necessária para investir na produção dos outros. Ou seja, quem dita o rumo da produção não é o dono da fábrica, mas os acionistas da empresa – fábricas existiam aos montes, e qualquer um podia produzir a um custo pequeno. Foi aqui que inventaram o conceito de outsourcing: agora, eram as crianças de 8 anos de idade de Taiwan e da Malásia que trabalhavam 14 horas por dia.
Você sabe o que dizem a respeito de sistemas de software. Só na versão 3.0 é que as falhas no design original são corrigidas. Isso acontece porque leva tempo para coletar os erros que acontecem em campo e ainda mais tempo para resolver os bugs.
Sistemas econômicos são bem parecidos. Na verdade, são até piores. Sistemas econômicos não possuem um engenheiro trabalhando na especificação, e todos os engraçadinhos (gente como Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Hitler e Fidel Castro) que se aventuraram a propor um re-design acabaram matando alguns milhões de pobres coitados.
Vamos olhar pelo lado de possibilidades abertas a cada nova versão do capitalismo?
Na versão Beta, você só poderia trabalhar na terra, e ainda tinha que ter a autorização do nobre e dar uma parte da sua produção para ele. Seu trabalho pouco valia, pouco era eficaz, e se traduzia em pouca qualidade de vida para você. Pior que isso, só se me obrigassem a assistir um jogo de golfe, comentado pelo Galvão Bueno.
Na versão industrial, tinha que trabalhar na fábrica e usar o seu salário para sobreviver e trocar por outros bens que você gostaria. Se você fosse mais ou menos capacitado, sua especialização já te renderia um salário um pouco melhor, e você já seria capaz de comprar um pouco de conforto.
Na versão financeira, se você quisesse se tornar um produtor de sapatos, você tinha que arrumar investidores dispostos a bancar a construção de uma fábrica. Construir a fábrica, arrumar gente disposta a trabalhar em troca de um salário que mantivesse o seu produto
competitivo, ou seja, baixo (ou ser uma Nike da vida e usar trabalho infantil) e ainda assim você corria o risco do seu negócio fracassar e ficar apenas com um estoque de sapatos encalhados para contar história.
Page 1 of 2 | Next page